Espetáculo mórmon nos EUA atrai milhares de fiéis e curiosos

Evento anual em Palmyra, no Estado de Nova York, conta com 750 atores e é espécie de 'oásis espiritual'

The New York Times |

Usando uma peruca castanha e brincos de caveira, Bryn Clark é a porta-bandeira do evento anual da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, uma representação com 750 atores e efeitos especiais que retrata o Livro Mórmon e foi realizada durante uma semana na cidade de Palmyra, Nova York, o berço da religião.

Mas toda noite antes da representação começar, ela tem um outro importante papel: o de levar a fé para a multidão.

Leia também: Fé mórmon de Romney é discreta, mas profunda

NYT
Atores participam de peça durante festa mórmon em Palmyra, NY (13/07)


À medida que o sol se põe no anfiteatro ao ar livre, ela e outros membros do elenco pegam suas cópias pessoais do Livro Mórmon e caminham entre os 7 mil espectadores, cumprimentando os fiéis que vieram até o local de todos os cantos do país e buscando qualquer um que não seja mórmon, para lhes falar sobre sua religião e responder quaisquer perguntas que possam ter.

Este é o 75º ano em que a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias está realizando este evento na Colina Cumorah, lugar onde, de acordo com a história da Igreja, Joseph Smith encontrou as placas de ouro nas quais o Livro Mórmon foi baseado na década de 1820.

Mas neste ano, o primeiro no qual um mórmon é candidato à presidência por um grande partido político, a representação é para muitos mórmons um oásis espiritual do mundo exterior, um lugar distante do mundo da política. É também um local onde têm a oportunidade de responder ao crescente número de questões que enfrentam sobre sua religião - algumas delas curiosas, mas outras mais maldosas.

À medida que anoitecia, Clark e Chloe Buffum, sua colega de quarto, caminhavam pela encosta coberta por grama e passavam pelo meio da plateia perguntando: "Você já foi recebido?" Eventualmente, chegaram ao fim da multidão e então encontraram Cindy e David Roza da cidade vizinha de Greece, Nova York, que estavam sentados em cadeiras com um saco de pipoca entre si. "Viemos para assistir o show", disse Roza, identificando-se como uma metodista. "Ouvimos falar sobre isso há anos."

Ainda assim, o casal ficou encantado como Buffum, uma dançarina no evento, que disse educadamente: "Será que podíamos então lhes contar um pouco sobre o show para que não fiquem tão confusos? Há muitos nomes estranhos e outras coisas que não conhecem", e, em seguida, fez um resumo animado do Livro Mórmon, seguido por uma frase da Escritura e pelo que os Mórmons chamam de seu testemunho pessoal.

"Frequento a faculdade e realmente não sei o que quero fazer quando terminar meu curso", disse ela, olhando para o céu. "Mas, sabendo que este Evangelho é verdadeiro e que tenho um Pai Celestial e um Salvador cuidando de mim e que Ele tem um plano para mim, tenho muita paz."

Elas também encontraram Amanda Urlacher, 18, e Amber Clayton, 17, não-Mórmons de Mississipi visitando uma tia Mórmon e sua família. "Posso deixar com vocês uma Escritura?" Clark disse para as meninas, arregalando seus olhos azuis. Deus, disse ela, ama a todos nós, não importa quem somos, maus ou justos. "E isso é um conforto tão grande na minha vida, saber que ele me ama, não importa quais erros eu cometi ou o que eu faço."

Embora eles estejam todos ansiosos para falar sobre a Escritura, o elenco e os visitantes mórmons do evento preferem não falar sobre política, em parte porque os líderes da igreja, preocupados com o status sem fins lucrativos da religião, instruem aos membros da igreja a separar o sagrado da política, disseram os missionários presentes no evento. Embora o apoio a Romney, um republicano, seja forte, poucos adesivos do candidato puderam ser notados no evento.

Em vez disso, esta cidade normalmente pacata de 8 mil habitantes é o lugar onde os membros da igreja em peregrinação se emocionam com a gráfica onde seu profeta, Joseph Smith, trabalhou enquanto publicava o Livro Mórmon, em 1830. Depois da mostra de um filme que retrata Joseph Smith enfrentando desafios por suas crenças, que muitos chamaram de fantasia, é quase impossível não se emocionar.

No lado de fora do evento, um pequeno grupo de evangélicos circulou pela cidade em um caminhão com uma placa amarela que dizia "WhatMormonsDontTell.com" (“O que os Mórmons não contam, em tradução literal), gritando advertências de condenação na noite em que o evento aconteceu.

"Vocês precisam se arrepender, mórmons, vocês irão para o inferno!", gritou um manifestante em um megafone após o término de uma performance. As luzes do carro do xerife local brilharam na escuridão.

As famílias mórmons ignoraram o barulho. Um frisbee iluminado voou pelo do céu. Um sinal azul perto da barraca de churrasco lembrava as famílias para receberem as críticas com bondade, e ninguém gritou de volta.

"Ao entrar e sair do evento na Colina Cumorah," dizia uma placa, "por favor, seja cortês com aqueles que podem tentar atrapalhar o espírito especial que você irá sentir neste local histórico."

Por Sharon Otterman

    Leia tudo sobre: mórmonseuareligiãoromney

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG