Economistas questionam compromisso de Cuba com empresas privadas

Quase dois anos após adotar reforma econômica para impulsionar setor privado, especialistas temem novo imposto sobre importações

The New York Times |

Quase dois anos depois do início da reforma econômica que o governo cubano implementou para cortar gastos nas folhas de pagamento públicas e reforçar a iniciativa privada, as mudanças desaceleraram tanto que muitos em Cuba estão questionando a vontade da liderança - ou sua capacidade - de reformular um dos últimos sistemas comunistas do mundo e realocar quase metade da produção da ilha para mãos privadas.

Aqueles que esperavam que essas medidas criassem ainda mais oportunidades para as empresas privadas tiveram uma desagradável surpresa na semana passada, quando uma notícia pouco anunciada pelo governo se espalhou: a de que as autoridades pretendem cobrar altos impostos sobre importações informais que vêm de Miami e outras regiões no exterior e são a essência de muitas destas jovens empresas.

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NYT
Homem vende colares e pulseiras em Havana (11/06)


"Isso pode causar um impacto enorme", disse Emilio Morales, presidente do Grupo de Consultoria Havana, com base em Miami, que disse que as lojas estatais de Cuba estão perdendo negócios para vendedores ambulantes. "Isso mostra que o Estado não está pronto para competir com o setor privado."

Depois que o governo cubano começou a permitir que as pessoas abrissem empresas no final de 2010, milhares delas optaram por trabalhar por conta própria, abrindo restaurantes, lanchonetes e lojas improvisadas, dirigindo táxis e arrumando celulares. Além daqueles que se aproveitaram de uma experiência de privatização anterior, realizada na década de 1990, cerca 387 mil cubanos de uma população de 11 milhões agora são independentes - os cubanos também estão negociando casas e carros de maneira privada pela primeira vez em 50 anos .

Com o crescimento do setor privado, aumentou também a quantidade de bens que são levados a Cuba diariamente em malas e mochilas, principalmente vindos do Panamá, Equador, Estados Unidos e Espanha. Sem acesso a um mercado de atacado, os cubanos se voltam para amigos, parentes e os chamados mulas para tudo, desde alimentos até bugigangas e iPhones. Este comércio paralelo cresceu para mais de US$ 1 bilhão por ano, de acordo com as estimativas de Morales, desde que o governo de Obama começou a afrouxar as restrições a viagens e remessas para Cuba em 2009.

Yunilka Barrios, que vende óculos de sol, elásticos de cabelos, esmaltes e alças de sutiã brilhantes em um pequeno corredor sujo e estreito, ficou alarmada com a perspectiva de um imposto de 100% sobre as importações informais que o governo disse que entrariam em vigor em setembro. "As coisas parecem estar piorando", disse ela.

Economistas, empresários e diplomatas acreditam que o presidente Raúl Castro está tomando bastante cuidado por causa da resistência das autoridades de nível médio que estão relutantes em perder suas regalias, e de autoridades conservadoras nervosas com o impacto social e político da emancipação econômica cubana.

O líder cubano, que jurou não repetir as "terapias de choque" que romperam a União Soviética, disse em um discurso em dezembro que o governo irá continuar "sem pressa ou improviso, trabalhando para superar a velha mentalidade dogmática e corrigir eventuais erros enquanto ainda há tempo."

Dada a falta de progresso, a promessa do governo em abril de transferir 40% da produção do país para o setor não-estatal nos próximos cinco anos está cada vez menos plausível, afirmam os especialistas.

"No ritmo que as coisas estão indo, eles não vão chegar a atingir esse número", disse Carmelo Mesa-Lago, um professor emérito de origem cubana da Universidade de Pittsburgh.

Com a Assembleia Nacional prevista para se reunir na próxima segunda-feira, dia 23 de julho, os cubanos estão antecipando uma expansão do número de cooperativas para além das agrícolas já existentes.

Autoridades concordaram em novembro em aumentar concessões para os agricultores que cultivam terras do Estado e permitir que possam construir sobre elas, mas as regras ainda não foram publicadas.

"Esta é a primeira vez desde a década de 1970 ou de 1980 que o país tem um plano, e esta é a primeira vez que há disciplina na implementação da estratégia", disse Rafael Betancourt, um economista baseado em Havana.

O governo pretende cortar as folhas de pagamento estatais para 170 mil e acrescentar 240 mil empregos no setor privado, um objetivo difícil, dado que apenas 24 mil cubanos tiraram licenças para se autoempregar nos primeiros cinco meses do ano.

Nem todos os empresários estão passando por dificuldades. Alguns restaurantes e serviços de táxi estão lucrando bastante. Carlos Saladrigas, um empresário cubano-americano, disse durante uma visita a Havana em março que sabia de pessoas "que estavam ganhando bastante dinheiro, até mesmo em comparação a padrões americanos."

Em entrevistas, alguns empresários cubanos disseram que estavam ganhando muito mais do que estavam no setor público. No entanto, o estoque das lojas de varejo do Estado eram caros e pouco confiáveis e muitas vezes acabavam indo para o mercado negro para cortar suas despesas.

Para Amarilis Albita Cabezas, um estudante de contabilidade de 23 anos de idade que administra uma lanchonete movimentada em sua casa em um subúrbio de Havana, as restrições resultam de uma desconfiança contínua da riqueza individual.

"Eles abriram essas empresas para que as pessoas pudessem sobreviver e para que eles também pudessem sobreviver", acrescentou. "Mas eu não acho que ninguém está enriquecendo. Isso seria - não sei - capitalismo ".

Por Victoria Burnett

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