Cães que atuam em zonas de guerra demandam tratamento diferenciado

Com cachorros desempenhando papéis cruciais em operações no Iraque e no Afeganistão, cresce necessidade de profissionais especializados no rápido atendimento desses animais

The New York Times | - Atualizada às

Ao sobrevoar uma paisagem árida do Afeganistão em um helicóptero, o sargento Mark Joseloff pensou que seu treinamento como paramédico de elite havia lhe preparado para qualquer coisa que estava por vir.

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Mas ele não esperava ter de atender um cão militar que desmaiou sob um calor de 43 graus. Joseloff, 34 anos, se baseou no tipo de tratamento que concedia ao tratar seres humanos em situações semelhantes.

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Membros da Guarda Aérea Nacional de Nova York têm aula de atendimento com cão modelo

Ele cobriu o cão com um cobertor molhado, aplicou gel eletrolítico e ordenou que o helicóptero voasse com suas portas abertas. O cão, no entanto, se recusava a beber água.

O cachorro sobreviveu, mas a experiência mexeu com Joseloff, um paramédico da Guarda Nacional Aérea de Nova York. "Eu improvisei bastante", ele disse. "Eu acho que tive sorte. Essa experiência abriu meus olhos."

Para tentar preencher uma lacuna no atendimento de emergência no campo de batalha, mais de uma dúzia de equipes de resgate da Guarda Aérea Nacional, incluindo Joseloff, recentemente passaram dois dias aprendendo a tratar cães em ambientes de combate. Com os cães militares desempenhando papéis cruciais nas operações no Iraque e no Afeganistão, a necessidade de ter profissionais especializados no rápido tratamento de animais feridos ou doentes tornou-se imperativa.

"Não há nenhum motivo para que aquilo que fazemos no campo de batalha não reflita o melhor atendimento médico do mundo", disse o tenente-coronel da Força Aérea Stephen Rush, que ajudou a organizar o treinamento.

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O treinamento foi conduzido pelo Veterinários Especialistas de Long Island, que é considerado um dos hospitais veterinários mais avançados do país, e pela K-9 Medic, uma empresa que ensina como dar assistência médica de emergência a cães de serviço.

Rush, um professor assistente de neurocirurgia e oncologia radioativa na Universidade de Nova York, disse que o treinamento de dois dias poderia servir de modelo para cursos futuros.

Contingente

Dos 2,7 mil cães que servem nas Forças Armadas, 29 foram mortos em ação no Iraque e no Afeganistão, segundo um porta-voz militar.

Os cães farejam bombas e detectam armadilhas no interior de edifícios e ao longo de ruas e estradas. O valor total de um cão treinado de serviço - muitas vezes pastores alemães, labradores pretos ou Malinois Belgas - pode chegar a US$ 40 mil. Além disso, os soldados responsáveis por eles acabam criando um laço emocional com seus cães.

"Um cão é como um irmão para esses caras", disse Joseloff.

Os paramédicos de elite, treinados para servir como resgate de emergência, são responsáveis por muitas missões de recuperação em locais remotos e perigosos.

Recentemente, em uma segunda-feira no hospital Veterinários Especialistas de Long Island em Plainview, Nova York, os membros dos paramédicos se revezavam ao virar de lado dois labradores negros, Angel e Shadow. Os homens aprendiam como carregar um cão sem prejudicar seu baço e como carregar um com uma lesão nas costas. Um funcionário do hospital mostrou para os homens como se examinava as gengivas de um cão para determinar se ele está doente. Tiraram o pulso dos cães. Durante a maior parte da análise, Angel e Shadow se mantiveram calmos, permitindo que os soldados os analisassem.

"Talvez tudo isso não seja tão fácil assim no campo de combate", disse Marissa Soto, uma técnica de veterinária.

A instalação tem uma máquina de ressonância magnética mais sofisticada que muitos hospitais e especialistas que incluem dermatologistas, oftalmologistas, cirurgiões de quadril e neurocirurgiões. O médico Dominic J. Marino, chefe do hospital, tornou-se tão altamente respeitado por seu trabalho com cães com certos distúrbios neurológicos que foi convidado a dar palestras em conferências de médicos que tratam de seres humanos com distúrbios semelhantes.

Durante o treinamento, os instrutores enfatizaram as semelhanças entre tratar cães e humanos. Os soldados treinavam como costurar feridas usando o mesmo tipo de costura que usariam em seres humanos. Em uma outra aula, sobre como tratar um cão em choque, os homens aprenderam a quantidade adequada de doses de fluido para cada tipo de cão.

Mas havia diferenças importantes. Os seres humanos em dor raramente mordem o médico que os trata. Os cães podem agir um pouco diferente, e por isso amordaçar o animal é uma prioridade. E os homens ficaram surpresos ao saber que o ato de aplicar um torniquete em uma ferida, um procedimento padrão em seres humanos, pode ser prejudicial para um cão.

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Como parte do treinamento, eles colocaram vendas nos olhos e usaram suas mãos e pés para sentir o chão e conseguir chegar até um cachorro de pelúcia dentro do centro de reabilitação do hospital. Com um instrutor dando as instruções ao lado deles, eles simularam uma verificação dos sinais vitais do animal. O instrutor pulverizava água para simular sangue saindo do corpo do cão à medida que os soldados aplicavam os curativos. Muitos esqueceram de amordaçar os animais.

Jo-Anne Brenner, diretora da K-9 Medic, ajudou a planejar o currículo das aulas. Ela disse que o objetivo do curso era ser prático e garantir que os paramédicos memorizem as habilidades necessárias para tratar cães durante uma crise.

Ron Aiello, presidente da Associação de Cães de Guerra dos Estados Unidos, um grupo de defesa dos animais, disse que o tratamento dos cães militares melhorou significativamente ao longo do último século.

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Equipe pratica atendimento de emergência em cachorro em aula dos Veterinários Especialistas de Long Island

"Eu era um adestrador de cães na época do Vietnã," disse Aiello. "Nós não sabíamos nada. Nem mesmo como aplicar os primeiros socorros caso nosso cão se machucasse.”

Agora, condutores de cães militares são treinados em primeiros socorros e veterinários estão presentes em zonas de guerra. Ainda assim, a formação de paramédicos militares no atendimento de emergência animal é importante, pois muitas vezes são os primeiros a providenciar assistência médica no local.

"É assim que estamos preparados agora: para resgatar pessoas ou os cães das pessoas", disse Rush.

*Por Eric Newcomer

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