Ultradireita promete livrar Grécia de imigrantes ‘imundos’

Grupos armados e carregando símbolo da suástica têm perseguido imigrantes e ameaçado destruir seus negócios; denúncias apontam laços com partido Amanhecer Dourado

The New York Times | - Atualizada às

Uma semana depois que um partido extremista de direita conquistou o Parlamento da Grécia, cerca de 50 de seus membros trafegaram em motos armados com pedaços de madeira pelas ruas de Nikaia, um subúrbio a oeste de Atenas, para demonstrar seu novo poder.

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Diante dos moradores, os homens circularam pela praça principal, alguns carregando escudos brasonados com o símbolo da suástica, e emitiram um ultimato aos imigrantes cujas empresas têm servido os gregos de Nikaia por quase uma década.

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Membro do Amanhecer Dourado, partido de extrema direita grego, arruma bandeiras da legenda em loja de Atenas

"Eles disseram: 'Vocês são a causa dos problemas da Grécia. Vocês tem sete dias para fechar suas lojas ou vamos queimar uma por uma. E não tenham dúvida disso. Iremos queimá-las'", disse Mohammed Irfan, um imigrante paquistanês dono de um salão de cabeleireiro e duas outras lojas.

Quando ele chamou a polícia para obter ajuda, o oficial que o atendeu disse que a força estatal não têm tempo para ajudar imigrantes como ele.

Um porta-voz do partido nacionalista Aurora Dourada, negou que membros associados ao grupo tenham se envolvido em qualquer tipo de ameaça e não existem números oficiais sobre os ataques contra imigrantes. Mas um novo relatório da ONG Human Rights Watch alerta que a violência xenófoba atingiu "proporções alarmantes" em partes da Grécia e acusa as autoridades de não estarem conseguindo por um fim a essa tendência.

Desde a eleição, evidências indicam um aumento acentuado na violência e intimidação contra imigrantes por membros do Aurora Dourada e seus simpatizantes. De acordo com grupos de direitos humanos, eles são encorajados pelo apoio político à sua ideologia anti-imigrantes durante a pior crise econômica a atingir a Grécia em uma década.

Recessão

Com o aprofundamento da recessão na Europa, a direita política tem conquistado mais espaço em vários países, inclusive na França, Holanda e Hungria. Mas a situação na Grécia mostra o quão rapidamente as pessoas podem querer fazer justiça com as próprias mãos à medida que um governo está ou muito preocupado com a crise financeira ou incapaz e pouco inclinado a lidar com o problema.

O novo primeiro-ministro da Grécia, Antonis Samaras, afirmou que pretende colocar um fim à "invasão" de imigrantes ilegais, mas "sem violência e sem extremismo." No entanto, à medida que os ataques aumentam, mesmo contra os imigrantes legais, ele raramente tem abordado o problema da violência.

Nenhum país tolera voluntariamente uma grande população de imigrantes ilegais, e na Grécia, uma porta de entrada para imigrantes da África e Ásia, há muito tempo recebe muitos deles. Sua fronteira com a Turquia é considerada uma das mais fracas da Europa, e as leis exigem que os países europeus mandem de volta os imigrantes ilegais para o país por onde eles entraram na União Europeia.

Enquanto essa lei foi suspensa na Grécia pendente um processo judicial, muitos permanecem presos no país por causa de problemas burocráticos, desempregados ou sem meios de integração. Os imigrantes ilegais acabam se estabelecendo em bairros mais pobres, piorando as tendências da criminalidade, pobreza e tráfico de drogas e desencadeando uma onda de descontentamento popular da qual membros do Aurora Dourada se aproveitam.

Ameaças, espancamentos e promessas por seguidores do Aurora Dourada para "livrar a terra da imundice" eram problemas esporádicos nos últimos anos, porém se tornaram cada vez mais comuns desde que o partido conquistou 18 dos 300 assentos do Parlamento nas eleições do mês passado, mesmo depois de Ilias Kasidiaris , porta-voz do partido, ter estapeado rivais do sexo feminino durante um debate televisionado.

Embora alguns ofensores estejam sendo presos, a Human Rights Watch e outros grupos acusam a polícia grega de estar ignorando cada vez mais o problema, mesmo diante de evidências de violência e até mesmo enquanto presenciam pessoalmente tais agressões.

O relatório afirma ainda que muitos dos imigrantes em situação irregular "foram rotineiramente desencorajados de apresentar queixas oficiais" e que "a polícia disse que algumas vítimas teriam de pagar uma taxa para registrar uma reclamação." Além disso, consta no relatório que a polícia disse para algumas vítimas que elas deveriam se defender sozinhas.

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Até mesmo o ex-líder do sindicato dos policiais Dimitris Kyriazidis recentemente acusou os policiais de "ignorar os grupos de extrema direita que são filiados ao Aurora Dourada e que estão operando em todo o país. O porta-voz da polícia grega Christos Manouras negou qualquer tolerância por parte dos oficiais em relação aos ataques aos imigrantes ou quaisquer tipo de ligação ou colaboração com o Aurora Dourada.

Ainda assim, a popularidade do partido está aumentando cada vez mais em meio a relatos de aumento da criminalidade em áreas pobres, onde os imigrantes ilegais estão concentrados. No Parlamento, recentemente, um membro do Aurora Dourada foi indicado para a posição de vice-presidente e foi apoiado por 41 parlamentares, uma indicação de apoio ou tolerância por parte dos principais partidos políticos.

Armado e com promessas de resgatar empregos e a ordem, o grupo está aumentando sua presença mesmo em algumas áreas de classe média. Homens vestidos de preto que fazem apologia a slogans nacionalistas e xenófobos oferecem proteção a pessoas idosas, pobres e empresários gregos.

À medida que o partido tenta expandir sua esfera de influência, muitos gregos estão preocupados com o que veem como ecos da ideologia de ultradireita em um país que resistiu à ocupação nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Em resposta, algumas comunidades estão formando movimentos antifascistas, tornando realidade o que antes não passavam de diferenças ideológicas.

Até o momento, grupos de direitos humanos disseram que os protestos têm sido pacíficos. Mas, de acordo com vítimas e grupos de direitos humanos, as ameaças e agressões contra imigrantes continuam a ganhar força.

Marco Moheb, 30 anos, um imigrante egípcio legalizado, disse que foi atacado em maio perto de uma delegacia de polícia em Kalithea, um subúrbio de classe média. De volta em Nikaia, Irfan, o proprietário do salão de cabeleireiros, disse que os imigrantes estavam pensando em maneiras de proteger a si mesmos e suas famílias.

"Eu amo este país", disse ele. "Mas não quero ser assassinado.”

Ele pensa em ir embora, caso a situação piore. "Mas mesmo se todos os imigrantes forem expulsos do país, será que isso resolveria os problemas econômicos da Grécia, criaria novos empregos ou traria melhores salários e pensões para os gregos?", ele perguntou. "É a crise que está a destruindo os empregos, mas alguns preferem dizer que nós somos os culpados."

*Por Liz Alderman

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