Livro sobre morte de cientistas nucleares por Israel se torna sensação no Irã

Segundo obra 'Spies Against Armageddon', assassinos eram agentes da Mossad que usufruíam de casas que atuavam como agências dentro do Irã desde a época do xá

The New York Times |

A última sensação literária de Teerã é um suspense sobre o programa nuclear iraniano, repleto de espionagem, assassinato e astúcia política. Mas os seus autores não são ex-agentes de inteligência iranianos ou escritores de ficção militar do país. Eles não são o equivalente ao escritor americano Tom Clancy, autor de "Caçada ao Outubro Vermelho".

Pena de morte: Irã enforca suposto espião de Israel por morte de cientista nuclear

AP
Corpo do cientista Mostafa Ahmadi Roshan é carregado pelas ruas de Teerã (13/1)

O livro, “Spies Against Armageddon: Inside Israel’s Secret Wars” ( Espiões contra o Apocalipse: Dentro da Guerra Secreta de Israel, em tradução livre), provocou uma agitação entre o governo e a imprensa de oposição dentro do Irã devido à afirmação feita por seus autores - Yossi Melman, considerado um dos principais jornalistas militares de Israel, e Dan Raviv, um correspondente político da emissora CBS – de que cinco cientistas nucleares iranianos mortos nos últimos cinco anos foram assassinados, bem provavelmente por agentes persas ou judaicos, contratados pela Mossad, o serviço secreto de Israel.

Israel não confirmou nem negou ser responsável pelos assassinatos.

Fontes de notícias iranianas veem o livro, lançado em 9 de julho, em inglês pela pequena editora Levant Books baseada em Sea Cliff, Nova York, como uma obra escrita por israelenses expondo algo que as autoridades não querem que o mundo saiba.

O livro oferece uma visão ampla de uma campanha israelense para sabotar o programa nuclear iraniano, que as autoridades israelenses alegam ser algo essencial para impedir o desenvolvimento de armas nucleares, uma acusação que os iranianos negam com bastante convicção.

Mas a afirmação do livro de que os assassinos eram todos agentes da Mossad que usufruíam de casas que atuavam como agências dentro do Irã desde a época do xá é novidade.

A rede de televisão Press TV, financiada pelo Estado iraniano, focou sua atenção em uma afirmação do livro de que uma unidade da Mossad conhecida como Kidon - que significa ponta de lança em hebraico e que é responsável por assassinatos e sequestros - enviou agentes a Teerã para realizar os assassinatos nos últimos cinco anos.

O relatório da Press TV também focou sua atenção na nacionalidade dos agentes, indicando que quase todos os assassinos empregados pela Kidon eram cidadãos iranianos ou tinham dupla cidadania. A implicação era de que eles eram tanto cidadãos do Irã quanto de Israel - a maioria das pessoas que possuem esse tipo de cidadania é de origem iraniana judaica.

Um site cujo nome em persa se traduz para Guerra Suave, que se dedica a documentar todas as formas de "operações psicológicas e ações de guerra suave" contra o Irã, ridiculariza as afirmações do livro como sendo "a maior piada do século", especificamente a alegação de que agentes da Mossad são qualificados o suficiente para terem conseguido se infiltrar no Irã, colocar bombas sofisticadas e magnetizadas nos veículos de quatro dos cinco cientistas, intoxicar a casa de um outro com monóxido de carbono e escapar de forma segura para Tel Aviv.

Edições

Não existem planos para traduzir o livro para o persa, mas o interesse se espalhou por todo o espectro político à medida que jornais reformistas iranianos se apressaram em resumir e traduzir o seu conteúdo. Blogs políticos de esquerda e direita escreveram análises e comentários sobre o livro.

Os autores basearam suas conclusões em relatórios de entrevistas públicas, declarações de líderes israelenses, dossiês do Departamento de Estado americano que foram vazados e encontros sigilosos entre os autores e autoridades israelenses.

WikiLeaks: Mossad apresentou aos EUA plano de golpe de Estado no Irã

Mas eles não citam fontes para suas afirmações sobre as nacionalidades dos assassinos ou suas crenças religiosas, que obtiveram uma maior reação por parte da imprensa iraniana ou a afirmação de que os assassinatos foram "azul e branco", ou seja, realizada por agentes israelenses desde o início até o fim.

Raviv refere-se ao estilo do livro como afirmações sintetizadas declaradas como fatos, sem citar entrevistas, citações ou até mesmo fontes anônimas.

A questão da nacionalidade dos assassinos foi de especial interesse no Irã, onde um suspeito de um dos ataques foi enforcado no mês passado. As autoridades anunciaram a prisão de um grupo de suspeitos no mês passado, descrevendo-os como agentes do que o Irã chama de regime sionista sem identificar suas nacionalidades.

Embora seja pouco provável que o livro acabe com a especulação sobre quem é responsável pela campanha para encobrir os assassinatos dos cientistas nucleares do Irã, suas afirmações correspondem a uma suposição que muitos especialistas em segurança nos círculos políticos de Washington vem fazendo há tempos.

*Por Artin Afkhami

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