Campanha de vacinação armada pela CIA pode ter prejudicado guerra contra pólio

Após descoberta de trama envolvendo médico para confirmar DNA de Bin Laden, moradores passaram a expulsar agentes de saúde de regiões tribais do Paquistão

The New York Times | - Atualizada às

A morte de Osama bin Laden pode ter uma vítima acidental: o esforço global para a erradicação da pólio. No Paquistão, onde a pólio nunca foi eliminada, a decisão da CIA (agência de inteligência americana) de enviar uma equipe de vacinação à casa de Bin Laden para reunir informações e amostras de DNA claramente prejudicaram a campanha de vacinação nacional contra a pólio. Mas a questão é: quanto?

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Depois que a trama perpretada pelo médico Shakil Afridi foi revelada por um jornal britânico um ano atrás, moradores furiosos, especialmente nas áreas tribais na fronteira afegã, expulsaram agentes de saúde legítimos, acusando-os de serem espiões.

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Soldado paquistanês patrulha região de Sararogha, cidade na remota região do Waziristão do Sul (foto de arquivo)

Então, no mês passado, comandantes talebans proibíram equipes de vacinação da poliomielite, dizendo que não poderiam agir até que os Estados Unidos encerrassem seus ataques com aviões não tripulados (drones).

"Foi um retrocesso, sem dúvida", reconheceu Elias Durry, coordenador da campanha contra a poliomielite no Paquistão na Organização Mundial da Saúde. "Mas a menos que a situação se espalhe ou se torne muito duradoura, o programa não será seriamente afetado."

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Ele e outros líderes da guerra global contra a pólio dizem ter se recuperado de reveses piores. Os distritos do Waziristão do Norte e do Sul, onde as vacinações estão proibidas, ficam em montanhas pouco povoadas, onde a transmissão da doença é menos intensa do que em favelas urbanas. Apenas cerca de 278 mil crianças menores de 5 anos - população alvo da vacina - vivem nesta região.

Além disso, segundo Durry, os vacinadores conseguiram alcançar 225 mil crianças no Waziristão no início de junho, antes da proibição. Todas precisarão de várias doses para estar totalmente protegidas, mas cada dose os faz ganhar tempo.

E, segundo o Bruce Aylward, chefe da OMS para a erradicação da pólio, equipes de vacinação estão posicionadas em postos de controle rodoviário, estações de trem e estações de ônibus. Eles dão gotas para todas as crianças que encontram.

Mas a sua eficácia será mais clara no pico do verão, quando os casos de pólio aumentam. O vírus gosta do clima quente e as monções do verão inundam as calhas e esgotos onde ele espreita.

Por outro lado, se as equipes de vacinação conseguirem agir, os casos de paralisia devem lentamente chegar a zero, como aconteceu em países como a Índia, um ex-epicentro da doença que não teve nenhum caso em quase um ano e meio.

Controvérsia

A raiva local chegou no seu auge em julho passado, quando o jornal The Guardian expôs a ligação da CIA. Ela foi confirmada pelo secretário de Defesa Leon E. Panetta, em janeiro.

"Não poderia ter havido uma ação mais estúpida, e certamente haveria uma reação, especialmente para a pólio", disse A. Zulfiqar Bhutta, especialista em vacinas da Universidade Aga Khan no Paquistão.

O revés foi apenas mais um na guerra interminável contra a pólio, que deveria ter acabado nos anos 2000. A luta é contra o último 1% dos casos. Casos de paralisia em todo o mundo diminuíram de 350 mil em 1980 para cerca de 600 agora.

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Mas a pólio é uma vacina com uma longa história de controvérsias entre os muçulmanos em muitos países. Não faltam rumores sobre vacina: que é um complô ocidental para esterilizar meninas muçulmanas, que é impuro diante das leis islâmicas, que contém o vírus da AIDS. A OMS e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), que supervisionam a campanha, pediram que estudiosos islâmicos, incluindo os principais clérigos sauditas, emitam fatwas (pronunciamentos) dizendo que a vacina é segura e deve ser ministrada.

Há cinco anos no Afeganistão, quando simpatizantes do Taleban espancaram vacinadores, a Unicef e a OMS com sucesso apelaram ao líder taleban Mullah Omar Muhammad por cartas de proteção para suas equipes. Agora eles estão tentando negociar com os comandantes locais no Paquistão.

"Eles sabem que não temos qualquer controle sobre os ataques aéreos", disse Aylward. "E eu ainda não conheci nenhum pai que prefira uma criança paralisada. Os comandantes do Taleban enfrentam esses mesmos problemas, mas eles têm queixas que precisam ser abordadas".

*Por Donald G. McNeil Jr.

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