Debate sobre serviço militar esbarra na identidade nacional de Israel

Ao discutir ampliação do alistamento para judeus ultraortodoxos e árabes, autoridades se depararam com evolução das comunidades no Estado e papel de sua força militar

The New York Times |

As perguntas que afligingiram o sistema político israelense nas últimas semana são pragmáticas: Quantos homens ultraortodoxos e cidadãos árabes deverão ser convocados para o serviço militar ou nacional? Por quanto tempo deverão servir? Qual deve ser a pena para aqueles que resistirem?

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Mas o debate sobre esses detalhes escondem um assunto ainda mais fundamental e fracionado sobre a evolução da identidade deste Estado, ainda jovem, onde um "Exército do povo" tem sido um princípio definidor, e sobre a diferença cada vez mais crescente entre suas tribos.

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Manifestação em Tel Aviv apoia lei que amplia alistamento para o Exército de Israel (7/7)

Isso é o que fez a coalizão do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, chegar à beira de um colapso nos últimos dias. No domingo, o governo israelense concordou em em redigir uma lei que, pela primeira vez, ampliará o alistamento obrigatório no país, incluindo judeus ultraortodoxos e a minoria árabe. O prazo para a decisão ia até 1º de agosto para substituir uma lei que prevê isenção a milhares de homens que estudam em yeshivas (escolas tradicionais cuja educação é baseada em textos religiosos), já que o Supremo Tribunal havia considerado a decisão ilegal em fevereiro.

O líder de uma comissão nomeada por Netanyahu - que se dissolveu na semana passada - para preparar uma lei substituta tornou público um relatório de 100 páginas no dia 4 de julho, no qual pede que 80% dos judeus ultraortodoxos sirvam ao Exército em 2016, além da imposição de multas de cerca de US$ 25 mil para aqueles que não o fizerem.

Shaul Mofaz, líder do Partido Kadima, cuja aliança surpresa com Netanyahu há dois meses criou uma maioria inédita de 94 assentos no Parlamento de 120 membros, disse que deixaria a coalizão dentro de dias se o trabalho da comissão não formasse a base da nova lei. Mas facções religiosas e de direita também prometeram trancar a coligação caso sanções pessoais sejam incluídas ou se os árabes não forem incluídos na lei.

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"Existe uma possibilidade de guerra civil entre os setores", disse Yedidia Stern, que administra um programa sobre religião no Instituto da Democracia de Israel e serviu no comitê encarregado de reescrever o projeto de lei.

"O que está em jogo são duas culturas, duas civilizações", Stern acrescentou, referindo-se à cultura ultraortodoxa, conhecida como Haredim, e a dos outros judeus da região. "Essas duas civilizações costumavam viver em paz, pois cada um pensava que o outro iria eventualmente desaparecer. Hoje em dia eu acho que todo mundo percebe que os dois lados estão aqui para ficar e nós temos de decidir qual será sua identidade na esfera pública".

Papéis no Estado

A questão não é tanto sobre as necessidades pragmáticas dos militares, já que o ato de integrar um grande número de Haredims promete ser mais incômodo do que benéfico, mas um crescente ressentimento sobre quem serve o Estado e quem colhe seus frutos.

No ano passado, cerca de 17% de Haredims com 18 anos de idade entraram para o Exército, em comparação com cerca de 75% dos demais judeus, enquanto outros 14% dos judeus ortodoxos e 8% dos cidadãos árabes se inscreveram para o serviço civil. De modo geral, pouco mais da metade dos israelenses agora fazem parte do serviço militar, o que sugere que o alistamento não é algo projetado para todos.

Devido ao fato de que o serviço militar é fundamental para a criação de empregos no país, existem também profundas implicações econômicas: quase 56% dos judeus ortodoxos vivem na pobreza e a renda média anual em sua comunidade é quase a metade da norma nacional, com muitas de suas grandes famílias dependendo da assistência social, subsídios de habitação e subsídios para o estudo em yeshivas.

Einat Wilf, um dos cinco parlamentares que serviram na comissão, disse que a solução não seria criar um projeto universal, mas sim uma aceitação de que o "Exército do povo" é algo fictício e que deve haver uma reformulação nos benefícios de acordo com isso.

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"Temos de aceitar o fato de que 64 anos atrás, eles não queriam que o Estado ganhasse poder e ainda não têm fé nas estruturas deste Estado", disse Wilf, referindo-se aos cidadãos ultraortodoxos e árabes. "A solidariedade é uma rua de duas vias. O Estado garantirá a todos o mínimo absoluto, mas além disso o Estado premiará as pessoas que dão e não apenas as que recebem."

Netanyahu se reuniu na quarta-feira da semana passada com Mofaz e dirigentes de outros partidos da coalizão para começar a elaborar um acordo. Ze'ev Elkin, presidente da coalizão, disse acreditar que as diferenças entre suas posições poderiam ser superadas e que não se opôs às sanções individuais àqueles que não servem.

Embora um rabino ortodoxo, Avraham Eisenstein havia divulgado um comunicado dizendo que nenhum estudante yeshiva seria alistado "seja por sua vontade ou contra a sua vontade", indicou um líder do partido ultraortodoxo Shas sobre uma certa vontade de aceitar os princípios, se não as indicações, da comissão.

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Ato de apoio a lei que amplia obrigatoriedade do serviço militar, em Tel Aviv. Nova lei gerou profundo debate na sociedade israelense (7/7)

"A praticidade da implementação de qualquer lei depende de como ela será divulgada e de processos que ocorrem lentamente, não tudo de uma vez só", disse o líder Ariel Attias. "Nós queremos e estamos preparados para que esses processos aconteçam. Alguns deles serão bastante dolorosos, mas não finja que isso é ser legal."

Stern, um dos cinco peritos que trabalharam na comissão nas últimas seis semanas, observou que mesmo na lei antiga "dá para perceber o começo de uma mudança."

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No ano passado, ele disse, 1.282 Haredims entraram para a Força de Defesa de Israel e outros 1.090 se inscreveram para o Serviço Civil, em comparação com um total de 305 que se alistaram em 2007; árabes geralmente não servem na Defesa, mas sua participação na Função Pública aumentou quase dez vezes, de 250 para 2,4 mil em 2007.

*Por Jodi Rudoren

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