Para Putin, Síria representa teste de princípios e praticidade

Além de trazer lembranças sobre revoluções que derrubaram lideres pró-Moscou, a Rússia  teme que aumento do islamismo do mundo árabe alimente insurgência no norte do Cáucaso

The New York Times |

Há meses, políticos ocidentais estão tentando entender quais são os interesses estratégicos da Rússia ao apoiar o presidente sírio, Bashar al-Assad - um líder que parecia pronto a perder seu cargo diante de uma revolta popular.

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Talvez eles não estejam se perguntando a questão correta. A postura do presidente russo, Vladimir V. Putin, cujos altos e baixos de sua carreira o deixaram mais cauteloso, tanto em relação às revoluções quanto à intervenção ocidental.

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Presidente russo, Vladimir Putin, que se nega a deixar Bashar al-Assad, em sessão do Parlamento em Moscou (27/6)

Esse é um homem que, durante as tentativas contra o sistema comunista, defendeu pessoalmente a sede da KGB em Dresden contra uma multidão de alemães irritados. E a visão suspeita de Putin da política de rua só se aprofundou com as "revoluções coloridas" de meados da década de 2000, em que protestos pró-ocidentais, alguns apoiados pelos Estados Unidos, derrubaram uma série de líderes simpatizantes de Moscou.

Desde o início das recentes revoltas árabes, os líderes russos as enxergaram não como um produto de mudança social, mas de interferência do Ocidente em parte com o intuito de prejudicar a Rússia.

Em fevereiro de 2011, quando uma multidão de mais de 1 milhão de pessoas tomou a Praça Tahrir, no Cairo, um vice-ministro russo das Relações Exteriores visitou o então presidente do Egito, Hosni Mubarak. Ele entregou a mensagem reconfortante de que a crise interna do Egito deveria ser resolvida através do diálogo e afirmou a postura firme da Rússia contra a intervenção estrangeira nos assuntos internos do Egito. Esta foi a última reunião de Mubarak com um enviado estrangeiro - ele deixou seu cargo dois dias depois.

É impossível separar completamente essas reações do que vem acontecendo dentro da Rússia desde o ano passado, no momento em que o acordo de uma década entre Putin e seus cidadãos começa a enfraquecer.

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Embora haja pouca margem de comparação entre as revoltas árabes e a agitação que vem acontecendo na Rússia - o movimento de oposição russo permanece pequeno, centrado em Moscou e moderado em suas táticas - a mudança repentina deixou o governo cauteloso em legitimar qualquer discordância popular.

A mídia controlada pelo Estado pinta um quadro desolador dos levantes nos países árabes, e diplomatas russos abordaram novas autoridades no mundo árabe de forma lenta e desajeitada. Enquanto isso, os líderes russos temem que o aumento do islamismo no mundo árabe alimentará a insurgência armada no norte do Cáucaso, que é principalmente sunita.

Contra intervenção

Em suma, a Síria tem fornecido para Rússia uma oportunidade de dizer não para intervenção ocidental e para o espectro da revolução.

No entanto, a Rússia está se afastando, embora lentamente, do apoio explícito a Assad. Na semana retrasada, o chanceler Sergei Lavrov disse que para acomodar as facções na Síria "é óbvio que é necessário ter um período de transição."

Cada ação incremental é seguida por demonstrações de que a Rússia está firme em relação à sua opinião, como por exemplo a sua recusa na semana passada em Genebra em aprovar um acordo que sugeria que Assad não poderia ser parte de um governo de transição. Essas táticas servem para tirar esses processos diplomáticos do ar durante semanas ou meses - que talvez não seja necessariamente um inconveniente para governos ocidentais que estão profundamente em conflito sobre se devem ou não intervir.

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Foto tirada por ativista mostra protesto contra o governo de Assad, em Idlib, norte da Síria (29/6)

Com o aumento da contagem de mortes, uma das preocupações reais de Moscou pode ser o endurecimento da opinião pública árabe contra a Rússia, disse um diplomata árabe, que falou sob condição de anonimato, de acordo com o protocolo. Com o alcance cada vez maior de canais de notícias como a Al-Jazeera e o Al Arabiya - que regularmente transmitem imagens dos massacres na Síria - as autoridades da Rússia foram forçadas a aceitar que "ao contrário das últimas quatro décadas, agora o mundo árabe tem uma voz", disse o diplomata.

A reação vai depender dos cálculos de Putin. Ele pode julgar que ceder à pressão ocidental poderá machucá-lo mais do que perder a Síria. Ou, se ele aceitar a idéia de que Assad não pode estender seu domínio para além do fim do ano, ele pode tentar negociar uma concessão para a Rússia.

Tudo o que restaria seria sentar e assistir em silêncio enquanto as multidões da oposição comemoraram sua vitória. Não é uma escolha simples para um homem que, duas décadas atrás, em Dresden, passou dias de pânico dentro do complexo da KGB, queimando documentos que representavam anos de trabalho. Então - convencido de que havia sido abandonado pelo país que serviu (Alemanha Oriental) -, ele saiu para se defender e defender seus colegas da multidão que estava lá fora.

*Por Ellen Barry

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