Decisão a favor de Lei de Saúde pode assegurar lugar de Obama na história

Embora presidente americano possa ser lembrado por socorrer a indústria automobilística, finalizar duas guerras e matar Osama bin Laden, reforma da saúde é seu marco histórico

The New York Times |

Para Barack Obama, que apostou grande parte do sucesso de sua presidência na reformulação do sistema da previdência social, a decisão do Supremo Tribunal a favor de sua lei para o sistema de saúde não significa apenas uma vingança política. Ela é um alívio pessoal e também representa a possibilidade de ele entrar para a lista de presidentes que fundamentalmente mudaram a trajetória do país, como Franklin D. Roosevelt, Lyndon B. Johnson e Ronald Reagan.

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Apesar de seu peso, a decisão não contribui tanto assim para resolver o debate que toma o país há décadas sobre qual o papel que o governo exerce na vida dos americanos. Este debate deverá se tornar ainda mais acirrado à medida que a eleição presidencial se aproxima e dará aos eleitores a oportunidade de expor seu veredicto sobre o legado de Obama.

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Obama fala sobre decisão da Suprema Corte americana em endossar reforma da saúde (28/6)

No entanto, a decisão da Suprema Corte preserva o status de Obama como o presidente que mais contribuiu para expandir a rede nacional de segurança desde o ex-presidente Johnson. Preserva um projeto de lei que está destinado para prevenir o rápido aumento da desigualdade de renda. E, além disso, permite a Obama argumentar que cumpriu a meta mais prometida em sua campanha de 2008: "mudança na qual podemos acreditar".

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Além de sua agenda legislativa - não apenas sobre os cuidados de saúde, mas em relação a educação e regulamentação de Wall Street - Obama esboçou uma visão do governo como uma força positiva e grande niveladora e protetora da classe média. Essa visão está em contraste gritante com o mantra republicano, articulado por Reagan, que optou por seguir a direção oposta em seu primeiro discurso inaugural, dizendo que "governo não é a solução dos nossos problemas. O governo é o problema".

Os republicanos, inclusive o candidato Mitt Romney , em grande parte adotaram as ideias de Reagan nas últimas décadas e obtiveram um sucesso considerável. Pesquisas mostram contínuo ceticismo do governo - especialmente em relação à lei da saúde - e os republicanos conquistaram a Câmara dos Deputados em 2010, com uma pequena mensagem de governo.

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Mas Obama construiu sua carreira política sobre a ideia de que os americanos estão prontos para algo diferente após três décadas de crescente desigualdade e de crescimento de renda lento para a classe média. Enquanto ainda era candidato em 2008, Obama declarou que Reagan mudou a história mais do que Bill Clinton ou Richard M. Nixon. Os planetas, segundo ele, estavam mais uma vez alinhados para fazer com que uma presidência transformadora fosse possível.

Projeto

Os cuidados de saúde têm sido a principal prova desse argumento, um projeto que ele se comprometeu a realizar mesmo tendo de colocá-lo acima de outros esforços ambiciosos, como combater as alterações climáticas ou reescrever o Código Tributário. Embora Obama possa ser lembrado por socorrer a indústria automobilística, finalizar duas guerras e matar Osama bin Laden, a lei da saúde foi seu marco para entrar para história.

Se Obama e seus opositores podem concordar em uma coisa é a que ele está tentando levar o país para longe de um período de laissez-faire. A ascensão do movimento Tea Party e a conquista republicana da Câmara foram uma reação que seus adversários viram como uma ação além do alcance do presidente. O fato de ele ter feito tudo isso enquanto o país estava mergulhado em uma recessão, e sem um único voto republicano, agravou a indignação.

"Isso mudou todo teor de sua política", disse Sean Wilentz, professor de história na Universidade de Princeton. "Demorou um pouco para a Casa Branca descobrir que o pós-partidarismo não iria se adequar às realidades de Washington. Eles podem ter julgado de uma forma errônea a situação política daquela época."

Mais amplamente, Obama pode ter julgado de uma maneira errônea a prontidão do país em aceitar uma expansão do governo, depois de décadas em que o credo conservador de Reagan passou a ser adotado, mesmo por democratas como Hillary Clinton, que declarou em 1996 que "a era de grandes governos acabou."

Steven F. Hayward, um especialista em presidência do Instituto da Empresa Americana, apontou que Obama promoveu seu projeto de saúde em termos conservadores. Enquanto ainda era candidato, ele se opôs a propostas por um mandato de comprar seguros.

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"Ele enxergou a ideia como sendo típica de um governo grande que acabou condenando o conceito de Hillary", disse Hayward, referindo-se a reforma defendida por Hillary Clinton quando era primeira-dama.

Historiadores comparam o desafio de Obama com o de Roosevelt, que teve partes de seu New Deal abatido durante seu primeiro mandato. A lição para o presidente americano, disse o historiador David M. Kennedy, Universidade de Stanford, é a de forjar uma coalizão robusta o suficiente para mudar o cenário político. Roosevelt foi eleito para um segundo mandato em 1936, solidificando o New Deal.

Mesmo se Obama for reeleito, ele poderá enfrentar novos desafios legais para a lei de saúde por parte dos Estados. As mudanças no cenário político do país também podem tornar os esforços realizados na semana passada menos definidores do que parecem ser. Mas a Suprema Corte deu ao presidente uma posição crucial para expor seu caso.

"Não é que o tribunal tenha afirmado com certeza o seu legado legislativo", disse Laurence H. Tribe, um professor de Harvard que ensinou direito constitucional tanto para Obama quanto ao chefe de Justiça John Roberts."Tudo dependerá do que acontecer até as eleições. Mas há um elemento crucial nesse caso que é o fato de o tribunal dizer com essa decisão que 'Isso não é um ato antiamericano' e isso é essencial."

AP
Partidários de Obama comemoram decisão sobre lei da saúde em frente à Suprema Corte, em Washington

*Por Mark Landler

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