Mudanças trazem novo tipo de primeira-dama ao Egito

Diferentemente das outras mulheres de chefes de Estado do país, Naglaa ali Mahmoud usa vestimentas islâmicas, nunca frequentou universidade e não adotou o sobrenome do marido

The New York Times |

Naglaa Ali Mahmoud usa um chador que cobre de sua cabeça até os joelhos, nunca frequentou uma universidade e nunca adotou o sobrenome de seu marido, pois isso é uma convenção ocidental que poucos egípcios seguem. Ela também se recusa a utilizar o título de primeira-dama e prefere ser chamada de Hum Ahmed, um apelido tradicional, que a identifica como a mãe de Ahmed, seu filho mais velho.

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O Egito tem um novo líder, Mohammed Morsi , o primeiro presidente vindo da Irmandade Muçulmana e não dos militares. E tem também Naglaa, 50 anos, cujo perfil é tão comum para padrões contemporâneos egípcios que torna sua nova posição de primeira-dama um ato extraordinário. 

AP
Mais tradicional, Naglaa Ali Mahmoud se distancia da ex-primeira-dama Suzanne Mubarak, que vestia roupas egípcias da última moda (12/5)

Naglaa é diferente de suas predecessoras, Suzanne Mubarak e Jihan el-Sadat, que vestiam roupas egípcias da última moda com cabelos bem penteados. Naglaa, com seu estilo tradicional e conservador, passou a simbolizar a linha divisória da guerra cultural que tem tornado a união do povo uma meta ilusória desde a queda de Hosni Mubarak .

Para alguns, ela representa a mudança democrática que a revolução prometeu. Ela é uma mulher no palácio presidencial que parece e vive da mesma maneira que suas irmãs e mães. Mas, para outros da elite ocidentalizada, ela representa o atraso e provincianismo que temem.

"Eu não consigo chamá-la de primeira-dama sob qualquer circunstância", reclamou Ahmed Salah, 29 anos, um banqueiro que tomava café com os amigos na ilha do Nilo de Zamalek. "Ela não pode representar as mulheres do Egito."

Sua imagem tornou-se objeto de um debate rancoroso em sites e nos jornais do país. Uma coluna no jornal El Fagr fez a seguinte pergunta: Como ela conseguirá receber líderes mundiais e continuar a aderir aos seus tradicionais padrões islâmicos de modéstia? "Não olhe para ela. Não aperte sua mão", o jornal sugeriu, chamando a situação de um "cenário cômico".

Naglaa, por sua vez, explicou ao jornal da Irmandade Muçulmana que sabe que não seria fácil ser a esposa do primeiro chefe de Estado islâmico. Se ela tentar desempenhar um papel ativo, corre o risco de ser comparada com Suzanne Mubarak, que foi amplamente desprezada por sua suposta influência nos bastidores. Mas se desaparecer, ela disse: "Eles vão dizer que Mohammed Morsi está escondendo sua esposa, porque essa é a maneira que os islâmicos pensam."

Tradição

Na cultura patriarcal do Egito, e especialmente entre os islâmicos, os homens raramente falam publicamente de suas esposas, e mencioná-las pelo nome é quase um tabu. Mas Morsi é extraordinariamente grato a Naglaa, mesmo em público, às vezes dizendo em entrevistas de TV que se casar com ela foi "a maior conquista de minha vida pessoal.

Às vezes ele a ajuda com as tarefas da casa, contou ela à revista Nesf el Donia, e até mesmo chegou a cozinhar para ela. "Eu gosto de tudo a respeito dele", ela explicou. "Nossas brigas nunca duraram mais do que alguns minutos."

Ela apareceu muitas vezes com seu marido durante a campanha, embora raramente tenha falado em público. Quando um jornalista da revista pediu para tirar uma fotografia sua, sua resposta foi condicional. "Só se as suas fotos me fizerem parecer mais jovem e um pouco mais magra", disse.

Assim que a vitória de seu marido foi confirmada, os egípcios começaram a zombar da ideia de uma dona de casa vinda de uma cidade pequena se mudar para o palácio presidencial.

No entanto, Naglaa disse que não fica muito impressionada com a vida dentro do palácio: "Tudo que eu quero é viver em um lugar simples, onde eu consiga realizar meus deveres como esposa. Um lugar como o palácio presidencial isola as pessoas completamente do mundo e faz com que elas esqueçam da realidade da maioria das pessoas."

*Por Mayy El Sheikh e David D. Kirkpatrick

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