Na Líbia, democracia entra em confronto com visões da jihad

Adeptos do sistema representativo baseado em processo eleitoral  tentam convencer extremistas islâmicos a deixar caminho da guerra santa para alcançar mudanças

The New York Times |

Abdul-Hakim al-Hasadi se armou há quase 20 anos para tentar trazer a lei islâmica para a Líbia . Ele estudou com os talebans no Afeganistão e, durante o levante do ano passado, liderou o conselho de uma milícia local na cidade líbia de Darnah, famosa por ser o berço da jihad islâmica.

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Mas agora Hasadi se reinventou como um político ansioso por disputar uma vaga no governo, enfatizando a importância das urnas para promover seus valores islâmicos. "Hoje, não há mais motivos para utilizar armas", disse. "As palavras são as nossas armas. A política precisa de política, não de força."

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Abdul-Hakim al-Hasadi, que deixou a jihad e hoje aposta na política, em Darnah, Líbia

Na mesma cidade, Sufian bin Qumu lidera uma milícia que levanta a bandeira negra do islã militante. Um ex-motorista de caminhão de Osama bin Laden , que passou seis anos como prisioneiro em Guantánamo, Cuba, Qumu diz que o Alcorão é a única Constituição que conhece. Ele insiste que permanecerá armado até a Líbia adotar um governo islâmico no estilo do Taleban.

"Eu vivi em Cabul, no Afeganistão, sob a lei islâmica", disse ele recentemente em um programa de rádio local, em sua única declaração pública até agora. "Se um Estado islâmico for estabelecido eu participarei dele."

Em uma competição cada vez mais acirrada pelo futuro do movimento islâmico na região, a visão pacífica de mudança de Hasadi parece ganhar terreno. Para o Ocidente, seu sucesso pode representar a maior promessa da Primavera Árabe, com a participação política podendo neutralizar a vertente do islã militante que fez com que milhares de pessoas fossem à luta e morressem em lugares como Iraque e Afeganistão.

No entanto, essa esperança de democracia, hoje está ameaçada na Líbia pelos sinais da guerra sectária na Síria e pelo Egito. No Egito, especialmente, mudanças de regras políticas por parte dos militares poderia validar argumentos de militantes sobre o valor da reforma democrática.

Alguns críticos temem que os militantes possam adquirir nova força. Em Darnah, que o Exército dos EUA disse ter enviado mais jihadistas para lutar contra as forças americanas no Iraque do que qualquer outra cidade do mesmo tamanho, Qumu e outros militantes ainda continuam liderando, de acordo com oficiais e moradores locais. Muitos culpam os militantes islamistas por uma onda de crimes violentos, como atentados contra carros.

Eleições

Muitos ex-jihadistas, no entanto, dizem ter depositado sua fé nas eleições, começando com um voto para uma Assembleia Nacional Líbia que deve acontecer em julho.

Mas ainda há sinais de uma clara divisão entre os jihadistas de Darnah. Durante a rebelião do ano passado, um grafite dizia "Não à Al-Qaeda." Agora a palavra "não" foi riscada. Algumas semanas atrás, logo após Hasadi ter falado em uma mesquita sobre as próximas eleições, militantes explodiram seu carro no momento em que não havia ninguém dentro.

Há ainda muitos que ainda desconfiam profundamente do Ocidente. "Até agora eu nunca vi nada de bom na política americana", disse Benkamaial, dono de um restaurante, que passou anos em uma prisão americana no norte do Iraque.

Quando abordado por um intermediário líbio que trabalha para o New York Times, Qumu gritou: "Vá para o inferno! Eu estive em Guantánamo por seis anos e os americanos não estiveram interessados em falar comigo! Por que eu falaria com um americano agora?"

É impossível saber quantas pessoas em Darnah apoiam Qumu. Mas alguns ex-jihadistas e outros em seu meio parecem ter vergonha de suas opiniões. "Eles acham que são os únicos muçulmanos verdadeiros na cidade", disse Faris el-Ghariani, 32 anos.

Hasadi, o jihadista que virou político, se gabou por ter acabado de pedir que uma mulher fosse sua quarta esposa. E recomendou que o Ocidente tentasse adotar certos castigos físicos islâmicos, como cortar as mãos dos ladrões.

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Mas ele está tentando expandir seu apelo. Ele que já foi professor, conduz as orações na mesquita local, é apresentador de programas de televisão e de rádio e toma conta dos meios de comunicação locais e internacionais. Segundo ele, o Taleban estava equivocado em restringir as carreiras das mulheres (que na Líbia irão votar).

Hasadi e Qumu continuam amigos, disse. Ele tenta persuadir Qumu a confiar na democracia e a largar suas armas, ou pelo menos a tirar a bandeira da jihad de seu estabelecimento.

"Você está manchando a nossa imagem", disse Hasadi a Qumu. "É bom ter essa bandeira, mas se ela assusta as pessoas. Por que tê-la então? Você não pode fazer nada. Por que então não ir embora desse lugar?"

*Por David D. Kirkpatrick

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