No Paquistão marcado por violência, revista foca em mundo das celebridades

Em meio a críticas por se distanciar da realidade ferida pelo terrorismo, publicação Hello! traz notícias sobre elite paquistanesa e famosos internacionais, como Sean Penn

The New York Times |

Será que celebridades e moda conseguirão mudar a imagem que o mundo tem do Paquistão? Essa é a proposta da revista Hello! do Paquistão, que proporciona um inesperado vislumbre da vida da elite do país e reacende um velho debate sobre seu papel dentro de uma sociedade com complicações.

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A Hello! Paquistão é a edição local da revista de celebridades britânica Hello!, famosa por suas entrevistas com estrelas de cinema e fotos exclusivas de aristocratas e da realeza. Mas os editores paquistaneses prometem algo diferente: uma ênfase no "lado suave" de seu país, que vai além da maneira como o Ocidente o enxerga: burcas, bombas e Taleban.

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Zahraa Saifullah Khan, editora da revista Hello!, que mostra a elite do país e celebridades

"Nós não estamos nos propondo a salvar o mundo", disse Zahraa Saifullah Khan, 29 anos, editora da revista, nascida no Paquistão mas educada na Inglaterra. "Mas esse é um ponto de partida para mostrar que não somos todos um bando de terroristas com barbas".

Muitos jovens profissionais paquistaneses, cansados da representação de seu país como sendo um caldeirão de caos, saudaram a ideia. Mas nem todos concordam que a publicação de imagens da elite do país seja a melhor maneira de mudar sua imagem.

Tendência

A revista é a mais recente afirmação de uma cultura de celebridade efervescente que prosperou no Paquistão na última década, apesar da turbulência política e da violência extremista. Revistas que falam da alta sociedade têm vendido bem, mostrando paquistaneses ricos em festas luxuosas, casamentos e bailes de caridade, geralmente com suas taças de vinho ou uísque discretamente escondidas. A publicação mais famosa do país se chama "Good Times".

Mas fazer apologia aos ricos e luxuosos pode ser algo controverso em um país com uma enorme diferença social e uma economia deturpada, onde grande parte da riqueza vem da corrupção, de heranças, ou de contatos e onde a camada superior da sociedade é notoriamente conhecida por não pagar sua justa parcela de impostos ou qualquer imposto que seja.

Para os críticos, a revista reflete a desconexão que a elite do país tem com sua própria realidade - dois anos antes, uma estilista de moda disse a um repórter como ela chorou "quando meus alfaiates formaram um sindicato e eu tive de demiti-los."

Edições

Até agora, a Hello! Paquistão atingiu um meio termo entre boas matérias e glamour. As três primeiras edições contaram com a participação do ator Sean Penn falando sobre inundações, fashionistas discutindo sapatos Louboutin, e fotos de um general do Serviço da Inteligência do Paquistão galopando em um campo de polo.

Sultan Khan, uma crítica literária, disse que a revista deveria se concentrar no que faz: fotografar celebridades e falar sobre frivolidades. "A ideia de que essa revista deveria representar a imagem do Paquistão me irrita", disse. "Não é como se as as pessoas que morrem violentamente todos os dias estivessem desaparecendo da nossa realidade."

Khan, a editora, disse que os números de vendas - 15 mil exemplares por edição - falaram por si mesmos. "É fácil sentar em uma sala fechada e falar sobre tudo que tem de errado com o Paquistão. Você tem de fazer a sua parte."

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Convidados dançam em evento de caridade promovido pela revista Hello! em Karachi

Outros expressaram uma posição mais complexa: desconfortáveis com a realidade que a revista retrata, mas, em um país assombrado por forças da intolerância, contentes que ela pelo menos exista.

"Os ricos vivem uma realidade paralela em todos os lugares do mundo, embora no Paquistão sua opulência pareça excessiva pois a classe média é praticamente inexistente", disse Mohsin Moni, escritor especializado em sátira social. "Mas se eu tivesse que escolher entre a vida retratada nas páginas da Hello! ou a vida que Osama bin Laden queria para nós, eu optaria pela Hello! Eu posso até enlouquecer com essa escolha, mas todo mundo deveria ter o direito de curtir um pouco a vida."

*Por Declan Walsh

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