No sul dos EUA, como no Estado da Geórgia, afroamericanos só podem ser embalsamados por afrodescendentes, como faz o agente Charles Menendez

Quando um afroamericano morre em um dos condados rurais na região de Madison, no Estado da Geórgia, é provável que seu corpo acabe nas mãos de Charles Menendez.

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Primeiro, ele faz uma pequena oração pedindo que a pessoa em cima da mesa o ajude a fazer seu trabalho. Então ele começa a trabalhar, fazendo o embalsamamento do corpo, como um artesão.

Charles Menendez em sua casa, onde trabalha embalsamando mortos em Madison, Geórgia
NYT
Charles Menendez em sua casa, onde trabalha embalsamando mortos em Madison, Geórgia

"Você não quer que a família toque a mão da vovó e sinta que está frígida e dura”, disse. "Você quer flexibilidade na pele. A ideia é deixar uma boa imagem do falecido em suas memórias."

Menendez só trabalha com afroamericanos. Sempre foi assim. Se o domingo continua a ser o dia mais segregado do sul dos Estados Unidos, então os funerais permanecem o negócio mais segregado que existe na região. Da mesma forma que gerações de tradição ditam as igrejas que as pessoas deverão frequentar, as raças tendem a sepultar seus falecidos de sua maneira específica.

"É assim que as coisas sempre feitas nestas regiões rurais", disse Menendez. "Casas funerárias para brancos empregam embalsamadores brancos, e as casas funerárias para negros empregam embalsamadores negros. Assim é o Sul".

Experiência

Menendez, 59 anos, embalsamou seu primeiro defunto quando ele ainda estava no primeiro colegial. Agora ele administra uma agência funerária de 94 anos de idade, a cerca de uma hora de Atlanta.

Mas com outra casa funerária para afroamericanos na cidade competindo com ele e apenas cerca de 60 mortes entre os negros por ano, já não é possível ganhar a vida fazendo isso. É por isso que ele também trabalha como um embalsamador contratado, viajando pelas estradas da Geórgia para casas funerárias em lugares como Union Point e Social Circle, que são pequenas demais para pagar um funcionário em tempo integral para preparar o morto.

Ele cobra US$ 225 por corpo. Para os casos de autópsia, acrescenta US$ 50. Um corpo com certas doenças infecciosas transmissíveis pelo sangue custa US$ 350.

Menendez, que frequentou uma escola de embalsamamento em Atlanta, começou a trabalhar na região em 1986. Ele comprou sua funerária em 2001 com a ajuda do reverendo Hoke Smith, o pastor da Igreja Batista do Calvário. "Ele é o melhor embalsamador do Estado", disse Smith. "Depois que termina o trabalho, a pessoa fica com uma aparência melhor do que quando estava viva. Essa é a arte do que faz "

Truques

Demora cerca de uma hora para embalsamar um corpo e uma hora para vesti-lo. O truque, disse Menendez, é de libertar a tensão localizada na face, preencher os pontos fundos e fazer com que a roupa vista de uma maneira bastante natural.

Mas isso é apenas uma parte do que faz. Menendez também se tornou muito bom na arte de lidar com a dor. No momento em que seus clientes chegam para procurá-lo, ele já consegue saber o quão preparados estão e o quão difícil será seu trabalho.

"Cada indivíduo sofre de uma maneira diferente", disse. "Tem pessoas que sofrem muito e chegam a perder o controle, outras já passaram por isso e estão mais preparadas."

Seja qual for a situação da família, ele administra uma funerária à moda antiga. Um ambiente tranquilo, sóbrio e ternos escuros.

Concorrência

Menendez não é um homem que costuma fazer muitas críticas, mas ele não gosta das maneiras como os diretores de funerárias mais novas em Atlanta - onde os preços podem ser quatro vezes mais do que a sua - se comportam. "Eles acham que a vestimenta é a única coisa que importa em todo o procedimento", disse. "Existem pessoas que eles vestem como se estivessem indo dançar em uma boate.”

Para ele, embalsamar os mortos e preparar um funeral é simplesmente um jeito de tornar todo o procedimento um pouco mais fácil. "O serviço funerário é algo que ou você ama ou não. É um serviço como qualquer outro. Você tem de ter um certo tipo de afinidade com ele."

*Por Kim Severson

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