Oposição síria recebe ajuda, mas união continua frágil

Rede de ajuda de sírios envia da Turquia armas, equipamento de comunicação, hospitais móveis e até mesmo salários de soldados que desertam do Exército

The New York Times |

As milícias da oposição síria estão se transformando em uma força de combate mais eficaz com a ajuda de uma rede de ativistas cada vez mais sofisticada na região de Antakya, no sul da Turquia. A rede está contrabandeando suprimentos essenciais através da fronteira, incluindo armas, equipamento de comunicação, hospitais móveis e até mesmo salários dos soldados que desertam.

Oposição: Soldados sírios desertam para Turquia

A rede reflete um esforço para forjar um movimento de oposição que organizações militares, governamentais e humanitárias, que juntas não apenas podem derrotar a força militar do presidente Bashar al-Assad, mas também substituir seu governo.

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Ativistas sírios trabalham em apartamento em Reyhanli, na Turquia

Embora seja muito cedo para se falar a respeito de um Estado dentro do Estado, a crescente sofisticação do esforço ressalta a natureza evolutiva do conflito e demonstra como o controle das regiões do norte e noroeste do país está lentamente escorregando da mão do governo. A rede está surgindo em um momento em que as tensões com a Turquia estão elevadas e diante de relatos de deserções de vários oficiais de alto escalão do Exército sírio, muitos dos quais estão agora ajudando a oposição.

O apoio aumenta no momento em que a Turquia se prepara para reunir na terça-feira, dia 3 de julho, com seus aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) para discutir uma possível reação à derrubada de um dos seus aviões de guerra por militantes sírios.

Compromisso

O compromisso com a oposição constitui mais do que apenas transportar suprimentos essenciais. O objetivo maior é criar coesão e cooperação entre as milícias que constituem o Exército de Libertação da Síria, bem como apoiar qualquer possível lei civil local.

Existem hoje 10 conselhos militares no interior da Síria, segundo os ativistas, presentes em praticamente todas as cidades importantes ou áreas rurais em conflito, com a notável exceção de Homs, onde as diferenças entre as facções continuam a impedir essa união. Os ativistas que trabalham com o Conselho Nacional da Síria, o principal grupo de exilados do país, pagam um pacote mensal que começa em cerca de US$ 200 por soldado, podendo chegar a uma quantia um pouco maior para oficiais de alto escalão, assim como uma bolsa de auxílio para as famílias dos mortos.

Tensão: Turquia posiciona baterias antiaéreas na fronteira com a Síria

O dinheiro, disseram os ativistas, ajuda a garantir a disciplina necessária entre os conselhos militares para projetar mais ataques coordenados sobre as forças de Assad, em vez de atos de sabotagem. "As operações militares precisam se tornar mais estratégicas", disse Hasan Kasem, 31 anos, um ativista que fugiu de Aleppo, na Síria, em fevereiro, quando foi convocado para servir no serviço militar.

O esforço da oposição agora também envolve armas de transporte que podem desafiar tanques. "Não é uma estratégia decisiva, no entanto, é apenas uma tentativa de mexer com o equilíbrio militar", disse um membro do Conselho Nacional Sírio, falando sob condição de anonimato pois o contrabando de armas é uma questão sigilosa.

Os governos ocidentais têm sido relutantes em fornecer grandes quantidades de armas sofisticadas à oposição por medo que elas caiam nas mãos erradas. Aparentemente, conscientes desta preocupação, as autoridades da oposição disseram que os destinatários são cuidadosamente avaliados. "Precisamos proibir a distribuição para certos indivíduos", disse um oficial, que não estava autorizado a falar publicamente. "Nós não queremos fornecer equipamentos para pessoas as quais não conhecemos."

'Operação estrangeira'

O argumento do governo sírio é que a insurgência é uma operação estrangeira projetada para fragmentar a Síria. Autoridades americanas e oficiais da inteligência árabe disseram que uma pequena unidade da CIA (agência de inteligência americana) está trabalhando na região, decidindo quem recebe as melhores armas. Mas de acordo com fontes, eles não conseguiram infiltrar no governo.

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Na Turquia, médicos sírios organizam suprimentos para hospitais na Síria

Ao menos dois ativistas admitiram saber a respeito de contatos com assessores americanos que ajudam com táticas militares, mas não se aprofundaram no assunto.

A maioria dos ativistas sírios salienta estar simplesmente lutando por uma vida melhor. "Se depender de nós, a Síria nunca será dividida", disse Manhal Bareesh, 32 anos, filho de um renegado do Partido Baath na província de Idlib. "Toda vez que alguém morre, eu sinto que estamos pagando um preço muito alto."

*Por Neil Macfarquhar

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