Mexicanas são as principais vítimas da onda de violência de Ciudad Juárez

Cerca de 60 mulheres e meninas foram mortas na cidade mexicana neste ano, enquanto ao menos cem foram dadas como desaparecidas nos últimos dois anos

The New York Times | - Atualizada às

Primeiro foram encontrados ossos e partes de corpos em um vale perto de Ciudad Juárez, no México. Pelo menos quatro mulheres haviam sido mortas e seus corpos, abandonados, segundo autoridades. Então, na mesma área, os investigadores fizeram outra descoberta no início deste ano: mais uma dúzia de corpos de mulheres e meninas.

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A maioria desapareceu entre 2009 e 2010, e quando foram vistas vivas pela última vez muitas delas eram adolescentes felizes com a possibilidade de ter uma vida inteira pela frente. Mas elas se tornaram apenas sombras do que poderiam ter sido.

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Criança passa por pôsteres de mulheres desaparecidas em Ciudad Juarez

A mãe de Idali Juache ainda insiste que sua filha está desaparecida, embora a polícia tenha ligado seu DNA a fragmentos cranianos encontrados no vale. Elvira Gonzalez disse que sentiu o que parecia ser o espírito de sua filha em casa, antes de descobrir que seu corpo havia sido abandonado no vale.

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"Eu nunca pensei que ela seria encontrada dessa maneira", disse Elvira, se esforçando para não chorar. "Eu sempre acreditei que ela seria devolvida para nós com vida."

Ciudad Juárez se tornou famosa por ter passado por uma onda de ataques que deixou centenas de mulheres mortas ao longo de uma década.

A atenção internacional diminuiu, mas os assassinatos continuam, com uma segunda onda ainda maior do que a primeira. Mesmo que a violência na região tenha diminuído, novos grupos de mulheres mortas estão sendo descobertos.

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Cerca de 60 mulheres e meninas foram mortas nesta região neste ano, enquanto ao menos cem foram dadas como desaparecidas nos últimos dois anos. E, embora o número de mulheres mortas até agora neste ano esteja abaixo da alta de 304 registrada em 2010, autoridades estaduais dizem que mais mulheres foram mortas em 2012 do que em qualquer ano da chamada “era do femicídio”.

Dessa vez, porém, a reação da população foi decepcionante. "As pessoas não reagiram com a mesma força que antigamente", disse Gustavo de La Rosa, um investigador de direitos humanos para o Estado de Chihuahua. "A maioria acha hoje que isso é normal."

Massacre sem fim

Para muitos, essas mulheres são agora parte do que parece ser um massacre que não terá fim. No gabinete que o Estado abriu há alguns anos para investigar a violência contra as mulheres, as mesas estão constantemente cobertas com arquivos de casos bastante violentos.

Um comitê do governo encontrou uma série de causas para a antiga onda de assassinatos. Após o levantamento de 155 assassinatos dos 340 casos documentados entre 1993 e 2003, a comissão constatou que cerca de metade deles foi inspirada por motivos como violência doméstica, roubo e guerras de gangues, enquanto um pouco mais de um terço deles envolveu assédio sexual.

Advogados das vítimas, no entanto, argumentam que as mortes das mulheres encontradas no vale neste ano envolveram motivos um pouco mais bizarros.

Francisca Galvan, uma advogada que tem trabalhado com os pais de meninas desaparecidas, disse que a filha de Gonzalez, Perla, 15 anos, foi vista pela última vez no centro da cidade conversando com um homem de meia idade na hora do almoço. Várias outras garotas encontradas no vale, juntamente com algumas que ainda não foram encontradas, também desapareceram de locais nas proximidades, disse Galvan.

Todas tinham em torno da mesma idade e várias delas se pareciam bastante umas com as outras: cartazes colocados por volta de toda cidade demonstraram que elas todas tinham cabelos longos, lisos, escuros e eram bem magras.

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"As autoridades não querem enxergar a verdade", disse Galvan. "Nessa região não se dá tanto valor à vida das pessoas.”

Ela tem suas próprias teorias: talvez as meninas tenham sido alvo de roubo de órgãos, talvez os assassinos tenham voltado ao México como resultado da onda de deportações que enviou milhares de imigrantes criminosos dos Estados Unidos para Ciudad Juárez. Embora não esteja claro se as vítimas foram estupradas, ela acrescentou que talvez os assassinatos tenham começado como agressões sexuais.

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Elvira Gonzalez segura retrato da filha, Perla, cujos restos foram encontrados em um vale

Autoridades americanas em El Paso, no Texas, disseram que também estão perplexas com a situação, pois normalmente quando traficantes se envolvem em assassinatos famosos, informantes costumam ligar com dicas. Mas no caso das mortes no Vale Juárez isso não aconteceu.

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Para os pais, o sofrimento foi agravado pelas autoridades, que têm feito muito pouco para tentar explicar os acontecimentos, na sua opinião. Várias mães de meninas desaparecidas disseram que os promotores se recusaram a deixá-las visitar o necrotério, ao mesmo tempo que as autoridades oferecem relatos conflitantes sobre o número de corpos femininos que foram encontrados na região do vale.

"Eles são mentirosos", disse Norma Laguna Cabra, mãe de Idali.

Gonzalez disse que um investigador do Estado chegou a afirmar que falou com o espírito de sua filha desaparecida. Segundo ela, o investigador visitou sua casa depois da descoberta do túmulo, mas antes das identificações terem sido anunciadas. Após ter passado pelo quarto de Perla, ele disse que ela queria lhe dar uma mensagem: "Eu estou a caminho."

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"Diga-me onde você está. Onde devemos procurar por você", Gonzalez disse ter gritado. Mas não adiantou: "Eu não posso dizer", foi a resposta do investigador.

Duas semanas depois, as autoridades disseram a Gonzalez que Perla estava morta. Profundamente religiosa, ela disse que havia concluído que a mensagem - seja verdadeira ou falsa - só poderia ter vindo do diabo, pois aumentou a sua dor.

"O único que nos dá justiça e obediência à lei é Deus", disse ela. "E não há como escapar dele."

*Por Damien Cave

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