Família chinesa vítima de aborto forçado enfrenta pressão das autoridades

Mulher obrigada a abortar feto de sete meses diz estar em hospital onde é observada por guardas e não tem permissão para sair, enquanto seu marido foi denunciado e agredido

The New York Times |

No início deste mês, uma mulher chinesa foi obrigada pelas autoridades de seu país a abortar um feto de 7 meses e seu caso desencadeou uma discussão nacional sobre a política chinesa do filho único.

Coerção: China pede desculpas à mulher forçada a abortar feto de sete meses

Agora, ela afirma ainda estar "sob muita pressão", vivendo observada por guardas em um hospital do qual não tem permissão para sair.

AP
Bebês recém-nascidos esperam para tomar banho em hospital na província de Shandong, na China (25/6)

Feng Jianmei está em um hospital da província de Shaanxi desde que sua filha nasceu morta depois que as autoridades induziram o parto no dia 2 de junho. A cunhada de Feng que a acompanha no hospital disse que seu irmão - o marido de Feng - foi agredido na semana passada pelas autoridades e que oficiais locais obrigaram os camponeses de sua vila a denunciar membros de sua família como "traidores".

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O assédio relatado ocorreu independentemente de as autoridades locais terem sido punidas pelo aborto forçado após uma fotografia da mãe na cama do hospital com o feto coberto de sangue em seus braços ter sido publicada na internet em meados de junho.

A Xinhua, agência de notícias estatal chinesa, informou que depois de uma investigação dois oficiais do condado foram demitidos e outros cinco receberam advertências ou deméritos. A reportagem também disse que o governo do condado havia recebido ordens para dar um subsídio de moradia para Feng.

Política pública

O caso de Feng foi um tópico de intensa discussão na internet neste mês e catalisou uma nova rodada de análises sobre a política chinesa do filho único.

Hu Xijin, editor-chefe do Global Times, um jornal estatal que muitas vezes imprime editoriais nacionalistas, escreveu em seu microblog no dia 12 de junho que o que foi feito com Feng é algo simplesmente "brutal". 

"Devemos promover o planejamento familiar civilizado", ele escreveu. "No entanto, eu sou contra o uso desse incidente para que as políticas chinesas de planejamento familiar sejam rejeitadas. O planejamento familiar tem sido benéfico para a China." A China, que hoje conta com mais de 1,3 bilhões de habitantes, é a nação mais populosa do mundo.

"Meu corpo está se recuperando lentamente. Eu ainda tenho dores de cabeça. Eu não tenho autorização para ir embora do hospital", disse Feng, 23 anos, em uma entrevista na terça-feira. "O pessoal do hospital nos traz comida três vezes por dia. A comida é OK, mas sinto que estou sob muita pressão."

Feng foi para o hospital com sua filha de 5 anos e sua cunhada Deng Jicai. O marido de Feng, Deng Jiyuan, estava desaparecido desde sábado, quando saiu do hospital para conversar com autoridades do condado, mas Deng Jicai disse que recebeu um telefonema de seu irmão dizendo que ele estava bem. Ele se recusou a dizer onde estava, ela acrescentou.

A família vem da vila de Yuping e disseram que as autoridades, tanto do município quanto do condado, os assediaram.Não foi possível contactar as autoridades locais para que pudessem comentar o ocorrido.

A mídia estatal chinesa informou que os oficiais da cidade de Ankang, que administram o condado de Zhenping, visitaram Feng e pediram desculpas a ela. Mas na sexta-feira, 22 de junho, quando Deng Jiyuan tentou ir a Pequim para falar com um advogado de direitos civis e participar de uma entrevista de televisão, ele foi parado por autoridades e espancado, disse Deng Jicai.

Relato

Após o aborto forçado, Deng começou a escrever em um microblog e contou os problemas enfrentados pela família. Ele e outros membros da família disseram que Feng foi sequestrada por agentes de planejamento familiar após ter se recusado a pagar uma multa de US$ 6,3 mil por sua segunda gravidez. Segundo a agência Xinhua, abortos tardios como esse são ilegais na China.

Planejamento: China avalia relaxar política do 'filho único'

Um post escrito, na segunda-feira do dia 25 de junho, no microblog de Deng por um de seus irmãos dizia que as autoridades locais fizeram uma marcha de camponeses no dia 24 de junho, denunciando a família. Eles carregavam uma faixa que dizia "traidores" e gritavam: "Acabem com Deng Jiyuan." Um de seus primos foi espancado por registrar a situação em fotografias, o irmão escreveu.

Quando questionada se planejava ter um segundo filho, Feng disse: "Isso depende de como meu corpo irá se recuperar. Se eu conseguir estar saudável suficiente para ter outro, a resposta é sim."

*Por Edward Wong

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