Deportação de imigrantes africanos mexe com alma de Israel

Expulsão de sul-sudaneses traz à tona críticas sobre  políticas de imigração consideradas inadequadas em nação que foi fundada por refugiados

The New York Times |

Um por um, os inspetores de imigração acompanharam os imigrantes para fora de um edifício em ruínas em um beco cheio de lojas e salões de beleza administrados por africanos. Em seguida, eles foram levados em um ônibus, dando início ao que seriam os primeiros passos para a deportação ao seu país natal, o Sudão do Sul.

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Uma mulher pegou uma bolsa de estampa de oncinha antes de sair. Um homem saiu com um livro na mão. Alguns usavam camisas coloridas e andavam de cabeça erguida. Um gritou: "Juba! Juba!", em referência ao nome da capital do Sudão do Sul, e ergueu as mãos em sinal de vitória.

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Garoto sul-sudanês se prepara para deixar Tel Aviv (17/6)

"Isso precisa ser feito", disse Mor Sheffer, um israelense que observou a retirada dos sul-sudaneses. "Ou amanhã não sobrará nada deste país para nós e teremos de procurar um novo."

Criminalidade

Muitos moradores da região de Neve Shaanan, no sul de Tel Aviv, se queixam de um índice elevado de criminalidade por imigrantes e disseram que o lugar se assemelha ao Soweto, em referência à região na África do Sul que foi tomada por uma revolta em 1976. Em um recente protesto realizado por políticos de direita, um legislador descreveu os africanos, conhecidos como "infiltrados", como sendo "um câncer." Mais tarde, lojas e apartamentos cujos donos eram africanos foram atacados.

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Mas a repressão do governo também está acabando com a alma de Israel. Para alguns, as detenções em massa foram longe demais. "Parece que estou em um filme na Alemanha por volta de 1933 ou 1936", disse Orly Feldheim, 46 anos, filha de sobreviventes do Holocausto, que distribuiu comida a uma longa fila de imigrantes no bairro de Levinsky Park.

Desde 2005, cerca de 60 mil africanos subsaarianos cruzaram a fronteira do Egito para Israel, depois de atravessar o árduo deserto da península do Sinai.

'Limpeza'

As crescentes tensões provocadas por sua presença fizeram que o governo anunciasse uma nova e rígida política para conter o fluxo de imigrantes africanos e requerentes de asilo. O ministro do Interior Eli Yishai prometeu limpar o país de todos os imigrantes ilegais nos próximos três anos.

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A professora israelense Anat abraça a colega sul-sudanesa Victoria no aeroporto Bem Gurion (25/6)

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu afirma que a maioria deles é de imigrantes econômicos que ameaçam o caráter judaico de Israel. No domingo, ele disse que todos os recém-chegados seriam imediatamente colocados em detenção. Netanyahu disse a seu gabinete que Israel estava "construindo instalações para dezenas de milhares de infiltrados até que eles possam ser removidos do país."

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Por enquanto, a maioria dos imigrantes e requerentes de asilo - cerca de 50 mil - não podem ser deportados, de acordo com as convenções internacionais. Eles vêm do Sudão e da Eritreia, países considerados perigosos demais para o seu repatriamento e por isso conseguiram proteção temporária em Israel. Essa proteção foi também recentemente providenciada aos imigrantes do Sudão. No dia 7 de junho, um tribunal de Jerusalém decidiu que era seguro o suficiente repatriá-los para o Sudão do Sul, um país recém-independente, que tem relações diplomáticas com Israel.

Existem 1,5 mil imigrantes do Sudão do Sul na região de Tel Aviv, de acordo com as autoridades israelenses. Ativistas sul-sudaneses possuem um registro de 700.

Nos últimos dias, cerca de 300 imigrantes do Sudão do Sul foram detidos para comparecer a audiências e esperar pela deportação. Centenas de outros concordaram em deixar o país voluntariamente para evitar a prisão e se beneficiar de uma multa de US$ 1,3 mil na saída. O primeiro voo de volta para o Sudão do Sul saiu no domingo, dia 17 de junho.

Seus vistos dizem que eles não têm permissão para trabalhar. As medidas do novo governo incluem multas para os empregadores de imigrantes ilegais. A maioria dos imigrantes acabam fazendo qualquer trabalho e normalmente recebe pouco por isso. Sob a recém alterada lei dos infiltrados, mesmo aqueles com direito a proteção coletiva podem ser detidos por até três anos.

Israel também está construindo um muro na fronteira com o Egito, medida que está destinada a deter ainda mais os imigrantes de entrarem no país.

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As pessoas podem solicitar o status de refugiado, mas a prioridade é dada para aqueles que não estão sendo cobertos pela proteção coletiva, disse Sabine Haddad, porta-voz da Autoridade do Ministério do Interior de Imigração, População e Fronteiras. A taxa de aprovação é negligenciável. Desde 2009, de 7 mil candidaturas, 16 pessoas receberam o status de refugiado ou foram concedidas asilo.

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Crianças sul-sudanesas esperam por ônibus que as levará a aeroporto em Tel Aviv (25/6)

Os críticos disseram que Israel, uma nação em grande parte fundada por refugiados, não tem uma política de imigração adequada. Alguns israelenses invocam o preceito bíblico de "amem ao estrangeiro pois nós já fomos estrangeiros na terra do Egito." Outros dizem que hoje em dia se sentem como estrangeiros em seu próprio país.

"Minha cabeça me diz que o fato de eles estarem aqui pode não ser algo positivo", disse um israelense que ajuda imigrantes africanos a encontrar emprego. "Mas eu sigo o meu coração. Estou dividido."

*Por Isabel Kershner

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