Suicídios aumentam em região onde casamento arranjado é comum no Iraque

Segundo autoridades, foram cerca de 50 suicídios neste ano na cidade de Sinjar, em comparação com 80 do ano passado; métodos mais comuns são cortes e tiros

The New York Times |

Com seu pai sentado ao seu lado, a jovem de 16 anos de idade Jenan Merza se esforçou para explicar por que estava deitada na cama se recuperando de um ferimento causado por um tiro.

"Eu não sabia que a arma estava carregada", disse ela, enquanto descansava em um quarto.

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Alguns momentos depois, quando seu pai saiu do quarto para fazer um pouco de chá e café, ela chorou baixinho e admitiu o que realmente havia acontecido. Ela atirou contra o próprio abdômen com a pistola Glock de seu irmão depois de tentar usar um rifle Kalashnikov - uma arma muito comprida para utilizar contra si mesma.

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Jenan Merza, 16 anos, se recupera de tentativa de suicídio após ter sido forçada a se casar com primo

"Eu tentei me matar", disse. "Eu não queria me casar. Fui forçada a me comprometer com um homem."

Nessa comunidade desolada e presa à tradição, localizada no canto noroeste do Iraque no sopé de uma montanha que faz fronteira com a Síria, a reação de Merza para o antigo costume do casamento arranjado está se tornando cada vez mais comum. Oficiais estão alarmados com o que descrevem como uma epidemia de suicídios, principalmente entre mulheres jovens atormentadas por serem forçadas a se casar muito jovens com alguém que não amam.

Embora qualquer estatística confiável seja difícil de se conseguir no Iraque, as autoridades afirmam ter registrado cerca de 50 suicídios neste ano em Sinjar, cidade de 350 mil habitantes, em comparação com 80 do ano passado. Os métodos mais comuns entre as mulheres são cortes e tiros.

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Entre as muitas explicações dadas, como a pobreza e a loucura, uma outra é oferecida com maior frequência: acesso a internet e televisão via satélite, que chegaram ao país após o início da guerra. Essas ferramentas têm dado a mulheres jovens vislumbres de uma vida melhor, livre das tradições que têm restringido as mulheres da região por séculos a uma vida de obediência e de criação de filhos, desprovidas de romance.

"A sociedade era fechada e agora está aberta para o resto do mundo", disse Kheri Shingli, oficial do partido político local, escritor e jornalista. "Elas sentem que não estão vivendo a sua vida de uma boa maneira em comparação com o resto do mundo."

Papel da mulher

No ano passado, a Organização Internacional para as Migrações realizou um estudo sobre o problema do suicídio crescente em Sinjar, onde os serviços de saúde mental não existem, e concluiu que "a marginalização das mulheres e da visão do papel da mulher como sendo algo periférico contribuiu para os recentes suicídios." Um relatório compilado neste ano por um investigador em um centro de saúde local concluiu: "A maneira de resolver isso é colocar um fim aos casamentos forçados."

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Isso provavelmente não acontecerá tão cedo. Ao atribuir a culpa pelo aumento nos suicídios, muitas pessoas mencionaram a novela turca "Amor Proibido". Um drama romântico da classe alta e um dos programas favoritos das mulheres da região, e que algumas pessoas dizem que fornece um exemplo realista do estilo de vida possível fora de Sinjar.

Merza disse que assistiu à novela e admitiu: "Eu gostaria de ter esse estilo de vida", mas sua angústia parecia ser um pouco mais básica. Aos 16, ela quer continuar sendo uma adolescente. "Eu quero ficar com a minha mãe e não necessariamente ter de ir para casa do meu marido", disse.

O pai de Merza, Barkat Hussein, que foi entrevistado depois, disse estar ciente de que o disparo não foi um acidente. "Nós a prometemos a seu primo há menos de 20 dias", disse. "Ela aceitou. Como qualquer pessoa que se casa, ela deveria estar feliz."

Ele disse que não iria forçá-la a retornar a seu marido, que mora ao lado, mas afirmou: "Espero que ela volte para casa para estar com ele. Seu pai é meu irmão."

Ele também culpou a novela turca pela infelicidade de sua filha e acenou com a cabeça em direção ao quarto onde sua esposa estava trabalhando. "Eu me casei com a minha prima", disse. "Eu não estava apaixonado por ela, mas hoje nós estamos aqui, vivendo juntos. Isso é o que acontece neste lugar: nos casamos com nossos parentes."

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Para Abdella Hassan, filha de 19 anos deveria estar feliz no casamento arranjado

Cultural

Assim como a família de Merza, a maioria dos moradores daqui são yazidis, que falam curdo, mas aderiram a uma religião que combina elementos do Islã e vertentes de antigas religiões persas. Entre as suas crenças está uma reverência especial a Melek Taus, a quem os muçulmanos consideram como o Satanás. Por isso, as pessoas do grupo têm sido muitas vezes rotuladas como adoradoras do diabo, o que justifica a opressão histórica da seita por muçulmanos extremistas.

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Os oficiais de Sinjar dizem que alguns dos casos que são julgados como suicídios são realmente crimes de honra, em que membros da família matam mulheres que cometem adultério ou que se casam com homens fora da sua religião ou classe e depois tentam encobrir o crime alegando suicídio.

"Isso também acontece", disse Majia Khalaf, médico que dirige um centro de saúde do governo.

Em um caso recente, um pai tentou alegar que a sua filha de 19 anos se esfaqueou até a morte, mas seus irmãos foram detidos por suspeita de homicídio. O pai, Abdella Hassan, disse que havia recentemente dado a mão de sua filha para seu primo, e que logo após o casamento, ela começou a "falar besteira" e começou a ter alucinações.

Ele a levou para ver o xeque yazidi, que disse que o diabo havia entrado nela e que aconselhou um rito de exorcismo que envolvia o ato de se cobrir na terra de um santuário yazidi. Antes que o rito pudesse ser realizado, o pai disse que a encontrou morta.

"Ela estava feliz em seu casamento", concluiu.

*Por Tim Arango

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