Novo ministro da Rússia polemiza debate sobre passado soviético

Escolhido por Putin para a pasta de Cultura, Vladimir Medinsky defende que cadáver de Lenin seja enterrado e ruas sejam nomeadas em homenagem aos czaristas

The New York Times |

O novo ministro da Cultura russo já havia irritado os liberais do país, que o viam como um monarquista que estranhamente também parecia advogar em nome de Stalin.

Posteriormente, Vladimir Medinsky, autor de um best-seller russo, também decidiu agravar os comunistas pedindo que enterrassem o cadáver preservado de Lenin e renomeassem as ruas em homenagem a famílias czaristas.

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"Talvez, depois disso, muitas coisas na nossa vida mudariam simbolicamente para melhor", disse Medinsky recentemente em um programa de rádio, aludindo a esforços para deixar para trás o passado soviético.

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Corpo do líder soviético Lenin é alvo de controvérsia entre czaristas e comunistas na Rússia (foto de arquivo)

Medinsky, que foi nomeado ministro no mês passado, reabriu o debate sobre o cadáver de Lenin e os nomes das ruas à medida que pioravam as tensões entre a oposição e o governo sobre o comício de terça-feira, dia 12 de junho.

Seus críticos o acusaram de tentar desviar as críticas de sua nomeação e distrair os manifestantes antigoverno. Mas se esse era seu objetivo então ele falhou. Milhares de pessoas saíram às ruas em protesto contra seu patrono, o presidente russo, Vladimir Putin, com seus críticos dizendo que ele não é qualificado para ocupar o cargo.

Homenagens

Medinsky primeiro comentou sobre os nomes das ruas em uma exposição na semana passada e logo em seguida, fez uma declaração na estação de rádio Ekho Moskvy observando que o cadáver preservado de Lenin deveria ser retirado de seu mausoléu da Praça Vermelha e enterrado com honras militares. O mausoléu, onde Lenin está em um caixão de vidro desde 1924 e era visto como um santuário virtual nos tempos da União Soviética, deveria virar um museu “que cobra entrada”, disse Medinsky.

Mas caso isso não fosse suficiente para atrair a ira dos nostálgicos, ele também pediu que as ruas fossem renomeadas em homenagem à grã-duquesa Elizaveta Feodorovna, que foi assassinada pelos bolcheviques em 1918 e canonizada como mártir pela Igreja Ortodoxa Russa.

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Ele também disse que uma das principais estações de metrô de Moscou, que foi batizada como Piotr Voikov, ativista que participou do assassinato do czar Nicolau 2º e de sua família em 1918, deveria ser renomeada.

Trajetória

Medinsky, 41 anos, trabalhou como burocrata do governo desde os anos 90 e esteve associado ao partido de Putin, a Rússia Unida, na década passada. Ele é cofundador de uma organização que faz lobby para a eliminação de nomes soviéticos da Rússia e disse que o país precisa de um "czar de verdade."

Ele foi escolhido por Putin, um ex- coronel da KGB, que tem feito repetidos esforços para unir os comunistas e czaristas na Rússia.

Na semana passada, Medinsky disse que não estava insistindo na renomeação imediata em homenagem aos membros da dinastia Romanov, mas sim para que seja feito um esforço para educar a população sobre as complicadas histórias por trás de certos nomes. Apesar de uma onda de renomeação ter ocorrido na década de 90, as principais vias na Rússia ainda mantiveram seus antigos nomes soviéticos. Existem muitos locais com o nome de Feliks Dzerzhinsky, fundador da polícia secreta soviética, por exemplo.

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Entrada de mausoléu de Lenin na Praça Vermelha, em Moscou

"É possível encontrar muitos pontos positivos na biografia de Dzerzhinsky assim como na de muitos outros ícones russos", disse ele. "Porém todos eram pessoas muito complicadas. Foi uma era complicada e nós provavelmente devemos ter muito cuidado na hora de lidar com isso."

Konstantin Eggert, um comentarista da rádio Kommersant-FM, disse que embora tenha apoiado a mudança dos nomes de lugares soviéticos ele suspeitava que Medinsky e o Kremlin estavam tentando manipular a opinião pública, desviando a atenção dos liberais em relação às queixas do governo para algo que apoiam.

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"O governo acha que, ao levantar um tema popular como a ideia da antiga Rússia se ocidentalizar, ele pode dividir a oposição", disse em uma entrevista. "Talvez essa tática teria funcionado no passado, mas eu não acho que irá funcionar hoje em dia, porque isso não será visto como algo honesto."

*Por Sophia Kishkovsky

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