Mulheres solteiras começam a conquistar espaço no Irã

Clérigos e políticos têm dificuldade em lidar com geração de jovens com boa formação que buscam vidas independentes longe dos pais e sem maridos

The New York Times |

Quando Shoukoufeh, uma estudante de literatura inglesa de uma pequena cidade no Irã, se propôs a alugar um apartamento para morar em Teerã, a capital do país, ela primeiro teve de parar em uma loja de bijuterias e comprar uma aliança falsa por US$ 5.

Acostumada a viver fingindo para poder se adequar à etiqueta da sociedade iraniana, na qual se espera que as mulheres morem com seus pais ou com o marido, esta jovem de 24 anos de idade usava a aliança falsa para impressionar agentes imobiliários e proprietários e os fazer acreditar que era é casada - e não uma mulher solteira querendo alugar um apartamento.

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Reuters
Mulheres iranianas passam por muro da antiga Embaixada dos EUA em Teerã (arquivo)

"Para eles e para os meus vizinhos, minha colega de quarto e eu somos duas mulheres casadas que vivem longe de seus maridos para poder estudar", explicou. "Na realidade, somos solteiras."

Não existem estatísticas oficiais sobre o número de mulheres que vivem sozinhas nas grandes cidades iranianas, mas professores universitários, agentes imobiliários, famílias e muitas jovens dizem que tal fenômeno era extremamente raro há 10 anos e está se tornando cada vez mais comum, provavelmente impulsionado por uma onda contínua de estudantes do sexo feminino que ingressam nas universidades e um aumento impressionante no número de divórcios.

A mudança tem obrigado clérigos e políticos a lidar com uma geração de jovens mulheres que criaram vidas independentes, longe da orientação de pais e maridos, em uma sociedade presa à tradição.

Desesperado para acabar com esta tendência, o governo deu início a uma campanha para promover casamentos rápidos e baratos. Mas a tática deu errado, de acordo com especialistas, pois tentou baratear uma instituição profundamente ancorada na cultura iraniana antiga.

Isso fez com quem as jovens mulheres desenvolvessem estratégias para se defender em uma sociedade na qual códigos sociais muitas vezes são baseados em desconfianças profundas sobre a sexualidade feminina. Shoukoufeg diz que busca força nos pais, que apoiam sua decisão de viver sozinha. “Eles sabem que quero ser independente”, afirmou. “Eles entendem que os tempos mudaram.”

Em um passado não tão distante, mulheres solteiras tinham de enfrentar uma estigmatização social severa. Mas isso está mudando nas grandes cidades, em parte por causa dos números, mas também por causa da televisão por satélite, das mídias sociais e das viagens mais baratas, que ajudaram a mudar atitudes.

As matrículas nas universidades aumentaram substancialmente no Irã na última década e as mulheres já representam quase 60% do total de novos alunos. Após ampliar seus horizontes na faculdade, muitas dessas mulheres têm dificuldade para encontrar maridos que considerem à sua altura.

Neste mesmo período, os divórcios aumentaram 135% , forçando a sociedade, se não seus líderes, a começar a aceitar as mulheres solteiras.

"Muitas das minhas amigas, especialmente aquelas as que vieram de cidades pequenas para estudar em Teerã, vivem sozinhas", disse Shoukoufeh. "Para muitas meninas da minha idade, hoje em dia viver sozinha é a regra."

Por Thomas Erdbrink

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