Hostilidade entre muçulmanos e nacionalistas abala cidade alemã

Antes tida como exemplo de tolerância, Bonn passa a ser palco de protestos e violência por causa de religião

The New York Times |

Os moradores de casa geminadas com bem cuidados jardins que margeiam as ruas de Bonn gostam de gabar-se da tolerância de sua cidade, que remonta ao tempo em que foi capital da Alemanha Ocidental e sede de dezenas de embaixadas estrangeiras. "Éramos uma cidade de diplomatas", disse Christa Menden, dona de uma loja de flores.

Mas desde 1999, quando o governo central se mudou para Berlim, a capital da Alemanha reunificada, os diplomatas partiram. Agora há uma população crescente de famílias de imigrantes muçulmanos, muitos dos quais mudaram-se para o bairro de Bad Godesberg, tomando conta das casas deixadas vazias pela mudança de capitais.

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EFE
Homem de grupo salafista distribui cópias do Alcorão em Hannover, na Alemanha (14/04); tensões envolvendo muçulmanos aumentam no país

A antes tranquila cidade de Bonn é hoje um coquetel volátil de tensões sociais entre os muçulmanos, entre os quais estão alguns alemães convertidos assim como imigrantes de países de língua árabe, e um grupo de extrema-direita nacionalista que está armando uma crescente campanha contra eles.

No mês passado, cerca de 200 muçulmanos, muitos de outras cidades, se reuniram para defender a honra do profeta Maomé depois que o partido de extrema-direita Pró-NRW (Norte Reno Vestfália) ameaçou carregar caricaturas do profeta durante uma manifestação contra os muçulmanos diante da Academia Fahd, uma escola islâmica construída em 1995 pelo governo da Arábia Saudita.

Depois que as autoridades tentaram, sem sucesso, conseguir uma liminar para impedir a manifestação, carros da polícia foram estacionados diante do instituição para bloquear a exibição das caricaturas ofensivas. Mas depois que um dos 30 nacionalistas presentes subiu nos ombros de outro para mostrar os cartazes aos muçulmanos, que tinham acabado de rezar, uma chuva de pedras e cacos de vasos de flores despedaçadas voou em sua direção em resposta.

"Eles simplesmente explodiram", disse Robin Fassbender, um promotor de Bonn, que começou uma investigação sobre o caso que poderia resultar na acusação de tentativa de homicídio contra um manifestante de 25 anos de idade muçulmano, que conseguiu atravessar a barreira e esfaquear três policiais, ferindo dois gravemente.

Quando o tumulto parou, em 6 de maio, a polícia tinham prendido 109 manifestantes muçulmanos. "Eles viram a polícia como um órgão do Estado que queria insultá-los e não impedir que vissem as caricaturas", disse Fassbender.

A violência, que foi precedida por uma campanha nacional de distribuição de Alcorões nas cidades alemãs por salafistas, fez com que as autoridades voltassem a ter como foco o que dizem ser uma ameaça do movimento salafista conservador. O ministro do Interior, Hans-Peter Friedrich, prometeu tomar medidas mais fortes contra os salafistas.

Menos de uma hora depois do confronto, os moradores da região se reuniram para limpar a sujeira e os restos dos vasos quebrados. Muitos muçulmanos participaram para tentar manter a paz e entender os acontecimentos.

Uma =muçulmana que deu seu nome apenas como Elbay - porque, segundo ela, não se sentia confortável para ser reconhecida na mídia - disse que "é difícil para nós, como muçulmanos, ver nossa imagens ser sempre destruída".

"Fazemos o nosso melhor para tentar viver uma vida normal, fazemos nossos filhos brincarem com crianças alemãs, temos amigos alemães, e depois as pessoas vêm e destroem tudo isso", afirmou, em referência aos manifestantes muçulmanos que reagiram de maneira violenta.

Hans-Peter Weisz, que vive na mesma rua há 30 anos, disse que seus filhos tinham medo de que os protestos voltem a ocorrer. "É fácil entender como o ódio contra os estrangeiros pode crescer", disse Weisz. "Mas isso não é bom."

Por Melissa Eddy

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