Enquanto Vaticano lida com documentos vazados, livro detalha disputas internas

Obra tem como base alguns dos documentos do 'Vatileaks' e alimenta impressão de Santa Sé como local repleto de fofocas e traições

The New York Times

Em um local não revelado na cidade do Vaticano, as autoridades estão ocupadas interrogando Paolo Gabriele,  mordomo do papa Bento 16 , e outros em um escândalo relacionado a um escândalo de vazamento de informações conhecido como " Vatileaks ", que fez com que a Santa Sé da Igreja Católica pareça um local repleto de fofocas e traições.

Vatileaks: Papa critica cobertura 'exagerada' de parte da mídia

The New York Times
Gianluigi Nuzzi, autor do livro 'Sua Santidade: Os Papéis Secreto de Bento 16', é visto em Roma. Livro foi escrito em parte com base em documentos vazados do Vaticano

Escândalo: Vaticano nega envolvimento de cardeal no 'Vatileaks'

No outro lado da cidade, no lobby de um hotel de luxo na Via Veneto, Gianluigi Nuzzi, o repórter investigativo cujo novo livro baseado em alguns dos vazamentos causou transtorno no Vaticano, era levado ao tribunal e parecia bastante satisfeito.

"Estou bem tranquilo e convencido de que fiz meu trabalho de uma maneira correta, sem necessariamente questionar o Santo Padre", disse Nuzzi em uma entrevista na semana passada, durante a qual foi interrompido duas vezes por fãs pedindo que assinasse cópias de seu livro "Sua Santidade: Os Papéis Secretos de Bento 16".

Com breves relances da vida nos bastidores do Palácio Apostólico, onde vive o papa, e a exposição de lutas de poder no secreto – e lucrativo – Banco do Vaticano, o livro causou um transtorno na Itália mesmo em uma semana dominada por um terremoto que deixou muitos mortos , sombrias previsões econômicas e uma investigação que foi aberta por causa de dúvidas sobre uma possível manipulação de resultados de um jogo de futebol que abalou a fé dos italianos em uma instituição quase tão querida quanto a Igreja.

Produto de múltiplas controvérsias interligadas, o "Vatileaks" parece estar prestes a se tornar uma das mais destrutivas, se não uma das mais herméticas, crises do conturbado papado de Bento 16.

Acima de tudo, o "Vatileaks" mais uma vez revelou não apenas a maneira pela qual o Vaticano se mostra uma força global, com 1 bilhão de fiéis ao redor do mundo, mas uma instituição profundamente italiana em que conexões e fidelidades muitas vezes contam mais do que mérito, e jogos de poder maquiavélicos são considerados mais a regra do que a exceção.

Os críticos dentro e fora da igreja dizem que o secretário de Estado do Vaticano, cardeal Tarcisio Bertone, 77, tem sido um péssimo chefe-executivo para um papa teólogo que possui pouco interesse em governar, e alguns dos documentos parecem confirmar isso.

Em um deles, o cardeal Carlo Maria Vigano, anteriormente o segundo no comando da organização que administra a Cidade do Vaticano, queixou-se da corrupção e do compadrio na atribuição de contratos para construção civil e alegou que Bertone tinha sido influenciado por pessoas de círculos políticos italianos.

Outros documentos revelam confrontos travados a respeito de esforços problemáticos do Banco do Vaticano para cumprir as normas internacionais de transparência. Em uma carta revelada neste ano, o cardeal Attilio Nicora, um analista da guarda financeira que o Vaticano criou em 2010, disse que o Banco do Vaticano se recusou a fornecer detalhes sobre suas atividades bancárias suspeitas antes que uma lei antilavagem de dinheiro entrasse em vigor em 2011.

O escândalo fez com que o Vaticano entrasse em um modo de gestão de crises mais uma vez. O porta-voz do Vaticano, o reverendo Federico Lombardi, emitiu na semana passada boletins diários para negar relatos da imprensa, assim como outros que informavam sobre uma reunião entre Bertone e um industrial italiano para discutir a ideia de que o Vaticano compraria um banco italiano para que pudesse atender as normas internacionais de transparência sem necessariamente alterar o secreto banco do Vaticano.

A maneira na qual Nuzzi, um repórter investigativo para publicações como o Panorama e Il Giornale, ambos propriedade da família do ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi , chegou a ser um ícone de referência para documentos relacionados ao Vaticano é um mistério que Nuzzi não parece querer revelar.

À medida que o escândalo do "Vatileaks" continua, o papa tem se isolado cada vez mais, um solitário intelectual incapaz de impedir as lutas internas de seus subordinados. Em seu discurso semanal na quarta de 30 de maio, Bento 16 falou sobre o escândalo do vazamento pela primeira vez, implicitamente defendendo Bertone e seu secretário pessoal, o monsenhor Georg Ganswein, o destinatário de muitas cartas que também aparecem no livro de Nuzzi.

"Renovo minha fé e meu encorajamento aos meus colaboradores mais próximos e para todos aqueles que diariamente, com lealdade, espírito de sacrifício e em silêncio, ajudam-me a realizar meu ministério", disse Bento.

Mas nem todos estão trabalhando em silêncio. Na volta para o átrio do hotel, dois homens entraram, um depois do outro, para pedir para que Nuzzi assinasse cópias de seu livro. "Eles trabalham para o Vaticano", o autor disse depois que os dois tinham ido embora. Ele apontou para outro homem que estava sentado em um sofá no canto da sala, digitando em um laptop e cochilando de vez em quando. "Talvez esse cara esteja observando quem são as pessoas que estão vindo me visitar ", disse Nuzzi misteriosamente.

Um ar de intriga se apoderou do lugar. Nuzzi sorriu. "Não tenho nada a esconder", disse.

*Por Rachel Donadio

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