EUA ampliam combate ao narcotráfico na América Central

Com fim da Guerra do Iraque e aproximação da retirada do Afeganistão, governo americano dá mais atenção à região, onde violência aumentou

NYT |

NYT

Depois de vários campesinos serem mortos no mês passado durante uma operação contra traficantes de drogas por agentes policiais de Honduras e dos Estados Unidos, aumentaram os questionamentos sobre se os esforços feitos pelos americanos para combater o tráfico de drogas na América Central estão indo longe demais. Mas as autoridades responsáveis veem a situação de maneira diferente.

No decorrer de 2011, oficiais de agências antinarcóticos observaram seus radares sem poder fazer nada enquanto mais de cem pequenos aviões atravessaram a América do Sul para chegar a pistas de pouso isoladas em Honduras. Mas no mês passado - depois de estabelecer uma nova estratégia dando mais ênfase à cooperação entre vários departamentos e agências dos Estados Unidos – dois voos contrabandistas foram interceptados em uma única semana, um acontecimento que explica por que as autoridades americanas dizem estar determinadas a prosseguir com esta abordagem.

Leia também: Cartéis do México travam guerra sangrenta por rotas que levam aos EUA

NYT
Piloto da Força Aérea americana inspeciona avião na base de Soto Cano, em Honduras (13/03)

"Nos primeiros quatro meses deste ano realmente conseguimos trabalhar em equipe", disse William R. Brownfield, secretário-adjunto de Estado para Assuntos Internacionais e Assuntos Policiais. "Meu palpite é que os narcotraficantes estão começando a repensar sua estratégia. Pela primeira vez em uma década, as remessas aéreas estão sendo interceptadas imediatamente após terem pousado."

Com a atenção de Washington dividida entre o Iraque e o Afeganistão - e com o dinheiro do orçamento também dividido - os Estados Unidos estão expandindo e unificando seus esforços antidrogas na América Central, onde a violência tem aumentado à medida que esforços de prevenção realizados no Caribe, Colômbia e México têm forçado o tráfico de cocaína para países menores, que possuem forças de segurança mais fracas.

Como parte desses esforços, os Estados Unidos estão pressionando os governos de toda a América Central a trabalhar em conjunto contra esta ameaça em comum - compartilhando informações e até mesmo permitindo que as forças de segurança de um país possam operar de maneira soberana no território de outro - uma abordagem que foi colocada em prática na incursão em Honduras. Mas algumas opiniões vindas da América Central ainda demonstram insegurança a respeito desta decisão.

Líderes do governo de Honduras, que chegaram ao poder através de uma eleição controversa poucos meses depois de um golpe de Estado em 2009, apoiaram a ajuda dos EUA, mas os céticos afirmam que o entusiasmo é em parte porque a parceria reforça a sua frágil influência.

Mais amplamente, há um descontentamento na América Latina com os esforços realizados pelos americanos, que alguns líderes e especialistas independentes enxergam como uma maneira de o país proteger sua fronteira mais do que realmente tentar combater o narcotráfico, a corrupção e a violência nos seus vizinhos afetados.

"A violência tem aumentado muito, os crimes ligados ao tráfico de drogas continuam piorando e essa é a principal reclamação da América Central", disse o presidente da Guateamala, Otto Pérez Molina. Ele acrescentou que hoje os cartéis de drogas estão mais bem organizados do que há 20 anos e que "se não houver inovação, se não fizermos algo realmente diferente do que temos feito, então esta guerra será perdida".

Numa região de Honduras chamada de Costa do Mosquito, onde a operação ocorreu, os moradores têm demandas mais simples. "Se você está vindo para a Costa do Mosquito, venha para investir", disse Terry Martinez, diretor de programas de desenvolvimento para a região de Gracias Dios. "Ajude-nos a levar os nossos bens legítimos para o mercado. Isso vai ajudar a proteger a região."

As autoridades dos Estados Unidos dizem saber que realizar apenas incursões armadas não é o suficiente. O número de autoridades americanas usadas nos programas que são destinados a reforçar os sistemas de Justiça da América Central quadruplicou para cerca de 80 nos últimos cinco anos.

A Agência para o Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos ajudou a abrir mais de 70 centros de divulgação para os jovens desde 2009, oferecendo formação profissional e lugares para frequentarem após o horário escolar, de acordo com autoridades.

"Se a sua política de drogas é exclusivamente negativa e agressiva, provavelmente não será bem sucedida", disse Brownfield, um ex-embaixador da Colômbia. "É necessário que exista uma faceta positiva, que dê alternativas econômicas de subsistência, clínicas, estradas - coisas que realmente contribuam para as comunidades pobres, para que futuramente as pessoas não caiam no tráfico."

Apesar das mudanças descritas pelas autoridades, os orçamentos federais e relatórios de desempenho revelados em documentos do governo mostram que as prioridades no combate às drogas não mudaram de maneira significativa. Mesmo com a queda do consumo da cocaína nos Estados Unidos, os esforços antidrogas do governo no exterior continuam a ser fortemente focados na apreensão desta droga.

No entanto, questões mais amplas permanecem. Mesmo que a rota aérea para Honduras seja interrompida, enquanto os Estados Unidos - e cada vez mais a África e a Europa - continuarem sendo um mercado lucrativo para a droga, os traficantes continuarão a procurar diferentes maneiras de movimentar o seu produto.

Autoridades dos Estados Unidos dizem que já estão reforçando suas ações no Caribe, antecipando outra mudança na trajetória do tráfico.

Por Damien Cave, Charlie Savage e Thom Shanker

    Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG