Por dentro dos túneis que garantem sobrevivência em Gaza

Jornalista explora uma das passagens subterrâneas que estão no centro da vida e do comércio do território palestino

The New York Times |

Dois beduínos se encontravam do lado de fora dos portões da passagem de Rafah, no lado egípcio da fronteira com Gaza, discretamente à espera de pessoas que teriam sua entrada negada. Quando viajantes decepcionados voltavam dos portões, os beduínos sussurravam: "Você quer entrar pelos túneis? Cinquenta dólares".

Enquanto faziam sua proposta aos viajantes eles ficavam de olho nos policiais egípcios na fronteira, que fingem não ver o que está acontecendo desde que eles não mencionem os túneis a uma distância que possam ouvir. Tecnicamente ilegais no Egito, os túneis fazem parte do dia a dia e da vida desta região.

Embora a fronteira de Gaza com o Egito tenha sido oficialmente reaberta para os viajantes no ano passado, Gaza ainda depende dos túneis para conseguir a maioria de suas necessidades básicas, como o acesso a materiais de construção e alimentos, roupas, eletrônicos, carros e até mesmo vestidos de casamento.

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NYT
Túneis que vão de Rafah, no Egito, para Gaza, formam rede de sobrevivência para palestinos (20/10/2011)

As passagens subterrâneas estão escondidas no meio de uma "aldeia túnel" que eu me propus a encontrar. Não foi tão difícil: na estrada principal até a passagem de Rafah, você vira à esquerda. O caminho passa por uma aldeia com poucas lojas, quase deserta. O ar está repleto de pó de areia devido às centenas de escavações, tudo se funde com uma névoa marrom e por isso é difícil de enxergar muito à frente.

Trilhas de pedras levam a diferentes grupos de casas com suas janelas fechadas com persianas. Com o tempo, consegui negociar minha entrada através de um túnel estreito forrado com madeira, cuja entrada estava escondida no meio de um jardim de uma dessas casas.

À medida que entrava para dentro do túnel, a primeira coisa que ouvi foi "cuidado com a cabeça”. Esta frase seria repetida várias vezes durante a caminhada de 400 metros para o lado de Gaza da fronteira. Após a décima advertência, gritei: "Estou muito mais preocupado em ser bombardeado do que com minha cabeça!"

Meu guia, que assim como muitos outros com quem eu conversei se recusou a dar seu nome por medo das autoridades, soltou uma gargalhada.

Havia mais quatro trabalhadores dentro do túnel, todos agachados no chão usando um sistema de roldanas para transportar pedras que seriam usadas para fazer tijolos que irão ajudar em construções no lado de Gaza. É um processo trabalhoso. As pedras chegam e precisam ser carregadas para dentro do túnel, onde são colocadas em grandes cestos de plástico que estão ligados para formar uma espécie de trem.

Cestas vazias passavam por nós e paravam ao chegar à entrada do túnel.

"Esta é a nossa vida", disse um dos trabalhadores com o seu rosto coberto por uma camada de pó branco. "A vida é cara e a cidade de Rafah é mais cara do que o Cairo. Por isso, somos forçados a trabalhar e viver no subterrâneo."

Nós andamos cerca de 90 metros e chegamos a um ponto do túnel em que ele se tornava largo o suficiente para que coubesse um carro. Mas durante a maior parte do trajeto, andamos quase agachados e Mahmood se recusou a continuar até que minha cabeça estivesse praticamente rente ao chão para que eu não corresse nenhum perigo de me machucar.

O túnel foi escavado apenas seis metros abaixo da superfície e seu trajeto é quase completamente em linha reta. Apesar de sua aparência humilde, esses túneis - especialmente os mais recentes - foram construídos com habilidade e precisão. As juntas de madeira são bem feitas e as luminárias foram colocadas estrategicamente para que haja luz suficiente sem necessidade de perder muita eletricidade.

Depois de andar agachado por cerca de 274 metros, finalmente vi a luz no fim do túnel. Meu guia me pediu para que esperasse enquanto ele falava com o proprietário do túnel.

"Você tem que ter uma autorização do governo de Gaza para atravessar a fronteira", o guia me disse. "Se não o fizer, o Hamas irá multar ele em US$ 1,5 mil."

Enquanto esperava o proprietário verificar se não havia autoridades ao redor, duas mulheres apareceram na entrada do túnel. Enquanto elas caminhavam na ponta dos pés, uma delas sussurrou "não tenho certeza sobre isso", enquanto desaparecia túnel adentro.

Saí do túnel e conheci o seu proprietário, um palestino. Com um sorriso em seu rosto empoeirado, ele explicou como a passagem para Gaza funcionava.

"Se alguém quer atravessar do Egito utilizando o meu túnel, ele tem de me avisar com uma semana de antecedência e precisa solicitar uma autorização do Hamas", disse o proprietário. "Do ponto de vista do governo de Gaza, se você atravessar a fronteira, seja por túnel ou normalmente, precisa de uma permissão".

Muitos egípcios acreditam que, após a revolução que derrubou o governo no ano passado, a passagem de Rafah deveria ser aberta para o comércio e estabelecida uma completa liberdade de trânsito, colocando fim a um cerco econômico implementado em Gaza.

Os moradores de Gaza sempre consideraram os túneis como parte de um comércio legítimo e uma boa rota para visitantes, algo que é necessário para a sobrevivência em função do bloqueio. O governo israelense considera os túneis como uma rota de contrabando ilegal e muitas vezes atacam aqueles que localizam com bombardeios aéreos, que normalmente matam muitos trabalhadores.

Apesar dos bombardeios israelenses frequentes e - durante a era de Hosni Mubarak no Egito - inundações e até mesmo eletrocuções, os trabalhadores do túnel não se deixam afetar pela possibilidade de um colapso. Quando deixei o túnel e pisei oficialmente em Gaza, o proprietário riu quando o meu guia lhe disse que eu estava preocupado com um ataque aéreo.

Logo em seguida, um F-16 israelense rugiu sobre nossas cabeças e o dono olhou para o avião com um enorme sorriso e acenou para seus pilotos para bombardear onde eu estava. Ele apontou para mim e gritou para o céu: "Ele está aqui!"

Todo mundo riu muito. Quando me virei para trás e me agachei para entrar de volta no túnel a caminho do Egito, o dono me disse: "Cuidado com a cabeça!"

Por Ruqaya Izzidien 

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