Retratos da guerra: Ilustradores desenham soldados americanos feridos

Armados com lápis e blocos de papel, ilustradores registram dia a dia de militares que carregam marcas do conflito no corpo

The New York Times |

No mês passado, um grupo de artistas da Sociedade de Ilustradores de Nova York se reuniu no Centro Médico Militar Walter Reed em Bethesda, Maryland. Armados com blocos, lápis e câmeras, eles tiveram duas horas para cumprir sua missão: registrar em ilustrações alguns soldados feridos no Iraque e no Afeganistão.

Uma autoridade os levou pelos corredores da enfermaria até os pacientes que tinham concordado em participar. E em pouco tempo dois dos artistas - Victor Juhasz, conhecido por desenhos satíricos publicados na revista Rolling Stone, e Jeff Fisher, um ilustrador de Long Island – estavam em uma sala com Alejandro Jauregui, 27, um sargento do Exército que havia perdido ambas as pernas por causa de um explosivo improvisado colocado em seu caminho por insurgentes no Afeganistão.

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O artista Victor Juhasz desenha o sargento Alejandro Jaurequi em hospital de Bethesda, Maryland (27/04)

Jauregui, inquieto na cama, estava cercado por sua família: sua esposa, grávida de cinco meses, estava sentada numa poltrona, enquanto seus dois filhos corriam ao redor do quarto. Juhasz e Fisher rapidamente começaram a trabalhar - e não apenas na tarefa fazer os desenhos, mas também na de deixar os personagens à vontade. Juhasz fez diversas perguntas ao sargento enquanto Fisher se concentrou nas crianças.

Então Juhasz perguntou: "Você se lembra como isso aconteceu?". O clima no quarto mudou.

"Sim, me lembro exatamente", respondeu Jauregui. E ele se abriu, falando por horas sobre os eventos do dia da explosão.

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Os artistas estavam no Centro Médico Militar Walter Reed representando o Projeto Joe Bonham, um grupo dedicado a registrar as experiências de soldados feridos que já atua nos Estados Unidos há um ano e meio. O grupo - batizado em homenagem ao protagonista sem rosto do livro "Johnny Got His Gun", de Dalton Trumbo - foi fundado por Michael D. Fay, um ex-artista de combate do Corpo de Fuzileiros Navais, mas seus participantes são principalmente civis. Eles já produziram dezenas de ilustrações e pinturas, muitas das quais serão expostas em novembro na Galeria de Arte Pepco Edison Place, em Washington.

Uma pequena mostra já está em exposição na Universidade da Carolina do Norte, Charlotte.
Brandon Fortune, o curador da Galeria Nacional de Retratos Smithsonian, em Washington, credita o grupo por "criar uma nova forma" e "unir o mundo da ilustração de combate e retratos de arte" de uma forma que teria sido possível no passado.

Veja algumas das ilustrações:

"O retrato não é mais a forma de arte de elite que foi em séculos anteriores", disse Fortune. Atualmente, acrescentou, o gênero é "uma forma de explorar a identidade individual e do grupo", na qual "o sujeito é absolutamente agente na criação do retrato."

Ray Alma, 47, cartunista da revista Mad, disse estar participando pelo sentimento de desamparo que experimentou após o 11 de Setembro. "Me senti tão inútil", disse. "Mas desenhar é algo que eu sei fazer."

Permitir o registro também pode ser uma forma de declaração, como parece ter sido para o soldado especialista Derek McConnell, 22. Ele conheceu alguns dos artistas este ano, depois de perder as duas pernas e ter o braço direito danificando seriamente ao pisar em um dispositivo explosivo improvisado. Um jovem vibrante, ele foi ilustrado torcendo o corpo para mostrar suas feridas. "Quero que as pessoas vejam a realidade da guerra", disse.

É por isso que, quando os artistas chegaram, ele decidiu tirar sua camisa.

"É importante que as pessoas realmente vejam o que nós passamos", disse. "Tenho cicatrizes por todo meu corpo. Tenho uma bolsa de colostomia. Tenho uma perna que tem apenas cerca de 20 centímetros. Isto é o que acontece quando você envia jovens para a guerra. "

Por Carol Kino

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