Sistema de rastreamento de tiros agiliza trabalho da polícia nos EUA

Conforme mais cidades usam programa que localiza disparos por sensores sonoros, cresce debate sobre privacidade

The New York Times

A analista rapidamente se concentrou na tela do computador, na qual as palavras "vários tiros" apareciam em letras grandes. Ela ouviu uma gravação dos disparos e ampliou um mapa de satélite para ver onde a arma havia sido disparada: em Milwaukee, a mais de 4 mil quilômetros de distância.

Às 7h23 ela enviou um alerta para o Departamento de Polícia de Milwaukee. Menos de dois minutos mais tarde, uma equipe tática chegou ao endereço para encontrar cinco invólucros de balas calibre 22 e um garoto de 15 anos que havia sido atingido no braço. Os invólucros, disse Chris Blaszak, um detetive encarregado do departamento do centro da fusão de inteligência, foram encontrados num raio de 17 metros de onde o alerta tinha colocado o atirador.

Leia também:  Clube de tiro de luxo oferece novas emoções em Las Vegas

NYT
Funcionários observam telas com alertas de tiros registrados pelo sistema ShotSpotter no escritório da empresa em Mountain View, Califórnia (11/05)

Milwaukee é parte de um grupo crescente de cidades americanas - pouco menos de 70 até agora - que estão usando um sistema de detecção de tiros chamado ShotSpotter para identificar o local dos disparos segundos após sua ocorrência.

O sistema de detecção, que rastreia som captado por sensores acústicos posicionados em prédios, postes e outras estruturas, faz parte de uma onda de avanços tecnológicos que está transformando a forma como policiais fazem seu trabalho.

Muitas autoridades da polícia afirmam que o sistema tem melhorado significativamente o tempo de resposta para crimes envolvendo armas de fogo. Como os policiais rapidamente aparecem no lugar certo, o sistema também tem melhorado a confiança da comunidade na instituição e ajudado a evitar crimes.

Mas como muitas outras tecnologias, o sistema de detecção de tiros também provocou debate. Em pelo menos uma cidade, New Bedford, Massachusetts, onde os sensores gravaram uma discussão que acompanhou um tiroteio fatal em dezembro, algumas questões de privacidade foram levantadas, assim como o alcance da ação da polícia, mesmo a serviço da redução da violência armada.

Ainda assim, alguns especialistas em justiça criminal dizem que não se sabe ainda o quão bem a tecnologia funciona ou quão essencial ela pode ser para a polícia. "A questão é se isso será visto como um modismo ou uma ferramenta fundamental para o trabalho da polícia", disse Peter Scharf, um criminologista da Universidade de Tulane.

Em New Bedford, a gravação feita pelo ShotSpotter de uma discussão de rua deve desempenhar um papel crucial no processo contra dois homens, Jonathan Flores e Jason Denison, acusados do assassinato de Michael Pina em 2 de dezembro de 2011.

Em uma audiência em janeiro, um promotor distrital disse que o sistema havia registrado a discussão na esquina das ruas Dartmouth e Matthew.

Frank Camera, o advogado de Flores, disse que se a promotoria usar a gravação como prova, a questão da privacidade poderia ser levantada em nome de seu cliente. De qualquer forma, Camera afirmou que a nova tecnologia pode abrir "precedentes perigosos". "Se a polícia está utilizando essas conversas, então a pergunta é: Onde isso irá parar?", disse.

Sam Sutter, promotor público do Condado de Bristol, Massachusetts, afirmou que o ShotSpotter é "uma ferramenta extremamente valiosa" que ajudou seu gabinete a apresentar acusações mais específicas em quatro casos fatais. "Na minha opinião, o que é captado pelo ShotSpotter não tem a expectativa de privacidade porque foi dito em público", disse.

James G. Beldock, vice-presidente da ShotSpotter, disse que o sistema não tinha a intenção de gravar qualquer coisa exceto tiros, e que casos como o de New Bedford são extremamente raros.

"Há quem ache que os sensores são acionados por conversas, mas isso não é verdade", disse. "Eles não funcionam a menos que registrem um tiro."

Por Erica Goode

    Leia tudo sobre: euatirosmilwaukeetecnologiacrimearmas

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG