Tecnologia atinge cantos remotos do Tibete e alimenta motins

Revolução tecnológica tem papel cada vez maior em espalhar inquietação sobre políticas chinesas que tibetanos veem como sufocantes

The New York Times |

O jovem monge budista, de voz baixa e nervosa, discutia as autoimolações e protestos que atingiram as regiões tibetanas da China quando o insistente toque em madeira soou atrás dele.

Toque, toque, toque.

Protesto: Capital do Tibete é palco de suas primeiras imolações

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Tibetano mostra fotografia de monge que morreu após atear fogo em si mesmo
Imagens fortes: Morre o tibetano que ateou fogo ao próprio corpo em Nova Délhi

Seus convidados se encolheram, mas o monge calmamente apontou para um computador localizado ao lado do santuário religioso em seu quarto no mosteiro da cidade de Tongren, na Província de Qinghai.

O toque eletrônico apenas sinalizava a chegada de uma mensagem no Tencent QQ, um serviço de mensagens eletrônicas popular na China.

Atualmente, o inconfundível jingle marimba de iPhones e o blipe melódico do Skype podem ser ouvidos em mosteiros em toda a extensão remota de picos nevados e pastagens de alta altitude no noroeste da China. Mesmo nômades tibetanos que vivem longe das grandes cidades usam satélites para assistir à televisão chinesa e acompanhar transmissões da Rádio Free Asia.

"Podemos viver longe das grandes cidades, mas estamos bem conectado com o resto do mundo", disse o monge de 34 anos que, como a maioria dos tibetanos que falam com jornalistas estrangeiros, pediu anonimato para evitar punições.

A revolução da tecnologia, embora lenta em chegar por aqui, agora tem penetrado nos cantos mais distantes do planalto tibetano, transformando a vida diária e representando um papel cada vez mais fundamental em espalhar a inquietação a respeito de políticas chinesas que muitos tibetanos descrevem como sufocantes.

O aumento na consciência política tem conquistado espaço por meio de uma campanha de autoimolação que as autoridades têm sido incapazes de erradicar. Desde março de 2010, pelo menos 35 pessoas atearam fogo em seus próprios corpos, a grande maioria delas monges ou ex-monges budistas, muitos deles jovens.

Apesar dos esforços do governo para restringir o fluxo de informações, jornalistas cidadãos e monges comuns reuniram detalhes e fotografias dos autoimoladores e as disseminaram na rede apesar da chamada Grande Muralha Digital (Great Firewall) da China. Em alguns casos, fotos turvas mostram seus últimos momentos envoltos em fogo antes que policiais paramilitares retirem os manifestantes da vista pública. Relatos de notícias, preparados rapidamente por grupos de defesa e enviados para jornalistas estrangeiros, muitas vezes incluem as exigências dos manifestantes: mais autonomia e o retorno do dalai-lama, o líder espiritual tibetano que vive no exílio desde 1959.

"A tecnologia está facilitando uma conscientização que ocorre mais rápido do que nunca", disse Kate Saunders, diretora de comunicação da Campanha Internacional pelo Tibete, em Londres.

A conscientização também influencia uma geração criada sob o regime chinês, mas descrente da propaganda oficial que calunia o dalai-lama ou rotula os autoimoladores como terroristas. Mesmo alunos do ensino médio, milhares dos quais foram às ruas neste ano para protestar contra a eliminação de livros tibetanos, tornaram-se fluentes na língua da resistência.

Dicki Chhoyang, um ministro do governo tibetano no exílio, disse que muitos dos autoimoladores refletiam um grupo que foi mais bem educado do que a geração anterior e está cada vez mais conectado com o mundo exterior.

"Você está vendo uma geração que é muito mais ousada e tem um elevado nível de consciência política", disse Chhoyang, falando de Dharamsala, na Índia. "Eles querem enviar mensagens inequívocas sobre como se sentem sobre a situação tibetana."

Monges como Dorje, um jovem de 23 anos do mosteiro de Kumbum localizado em Qinghai, são típicos de uma geração cada vez mais conectada e globalizada. Seu quarto é decorado com pôsteres de Kobe Bryant, imagens de um adorado Buda e o violão que ele toca muitas vezes tarde da noite.

Seu bem mais valioso, porém, é o computador que usa para fazer downloads de baladas de Celine Dion e ler notícias de grupos de defesa dos tibetanos.

"Todos nós sabemos como pular o muro", disse maliciosamente, referindo-se ao software que contorna as restrições chinesas na internet. "Acho que todos estamos mais do que nunca conscientes de nossa identidade tibetana."

Tal atividade, no entanto, pode ser perigosa. Dorje disse que um monge foi levado pela polícia em março, dias depois que um amigo seu da Província de Sichuan telefonou para comunicar a última autoimolação. O erro do monge, disse, foi compartilhar a notícia com muita gente.

"A polícia está em toda parte", disse Dorje.

Grupos de exilados dizem que os esforços do governo para sufocar as informações têm sido muito bem-sucedidos em grande parte da Região Autônoma do Tibete, onde "a segurança é draconiana e jornalistas estrangeiros não podem pisar".

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Monges tibetanos no monastério de Labrang, onde forças de segurança chinesas interromperam o serviço de celular por cinco dias
No mosteiro Labrang, local muito popular com os turistas, os monges disseram que a torre temporária que paira sobre o prédio capta todas as conversas feitas em celulares e pode até mesmo cancelar a conexão. No último verão, foi exatamente isso que os oficiais de segurança fizeram durante a visita do panchen lama, líder superior religioso escolhido a dedo por Pequim, a quem muitos tibetanos veem como ilegítimo.

"Durante cinco dias, todos os nossos telefones ficaram mortos", disse um monge.

Mas Losang, um monge de alto escalão em Labrang, disse que tais táticas são apenas brevemente eficazes porque as autoridades devem eventualmente restaurar o serviço ou se arriscar a prejudicar a economia local.

Em uma tarde recente, Losang, um homem de língua afiada de cerca de 40 anos, mostrou alguns dos arquivos que mantém em seu computador: um vídeo de um festival religioso recente, imagens digitalizadas de diretrizes do governo e imagens proibidas do dalai-lama.

Ali também havia uma imagem do monge de 21 anos cuja autoimolação no ano passado desencadeou a onda de suicídios mais recente. Quando perguntado se tais imagens são copiadas, ele balançou a cabeça e disse que as restrições do governo, e não as imagens dos mortos, é que levam os jovens a tirar suas próprias vidas.

"Quando você sufoca uma pessoa", disse, "não deve se surpreender quando ela reage".

*Por Andrew Jacobs

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