Para muitos ilegais nos EUA, uma inóspita primeira parada

Contrabandistas no Texas colocam dezenas de imigrantes em pequenas casas e os tratam como prisioneiros submetidos à fome, ao espancamento e ao estupro

The New York Times |

Durante décadas, a primeira parada de imigrantes ilegais que atravessam a fronteira do Texas foi muitas vezes casas ou apartamentos temporários onde pudessem passar horas ou dias esperando para serem transportados para outros lugares. Muitas vezes, eles ficavam ali até que suas famílias pagassem os honorários dos contrabandistas.

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Imigrantes sem documento são vistos algemados depois de terem sido presos ao tentar cruzar a fronteira do México com a cidade de McAllen, no Texas (28/5)
Mas, nos últimos meses, esconderijos como esses têm se proliferado em cidades fronteiriças no Vale do Rio Grande e nas cidades mais ao norte, como Houston, uma tendência que ocorre no Texas, mas não em outros Estados na fronteira.

Autoridades locais, estaduais e federais do Texas confirmam que esses imóveis estão cada vez mais superlotados, com os contrabandistas colocando ali dezenas de pessoas e tratando-as menos como ocupantes e mais como prisioneiros, submetendo-as à fome, a espancamentos e estupro.

Em Edinburg, no sul do Texas, quando a polícia se aproximou de uma casa e de um trailer localizados num beco sem saída de uma rua de terra, dezenas de imigrantes ilegais fugiram. Mas aqueles dentro de uma terceira residência - uma casa de dois quartos de concreto pintada de branco - não puderam escapar por causa das correntes nas portas e barras de segurança nas janelas.

Não havia ar-condicionado nem eletricidade no local. Cerca de 50 homens e mulheres foram detidos naquela casa, com alguns dizendo aos investigadores que tinham sido ameaçados de morte caso não permanecessem em silêncio. Alguns não comiam havia dias.

Marcial Garduino-Salas, 23, um dos dois homens que posteriormente se declararam culpados da acusação de conspiração para esconder estrangeiros, recebeu os recém-chegados na casa dizendo sempre a mesma coisa, segundo documentos judiciais. "Bem-vindos ao inferno", dizia.

Ocupantes dessas casas no Texas foram agredidos sexualmente, forçados a trabalhar, torturados e passaram fome e sede. Uma das 21 pessoas encontradas em uma casa em Edinburg disse que o homem responsável pelo local tinha batido nela com um taco de beisebol porque os ocupantes ligaram a geladeira mesmo depois de receberem instruções para não fazer aquilo.

Os contrabandistas muitas vezes mantêm os imigrantes detidos como maneira de extorquir mais dinheiro de suas famílias. Mesmo aqueles que não estão sendo utilizadas para extorsão são mantidos em cativeiro para evitar que os vizinhos percebam sua operação e prejudiquem seus negócios caso os imigrantes escapem.

O aumento de esconderijos desse tipo no Texas é uma tendência oposta à que ocorre no sul da Califórnia e Arizona, onde tem diminuído. A área de Phoenix já foi conhecida como a capital de esconderijos para imigrantes ilegais da América, mas não mais - agentes federais descobriram 805 imigrantes em 51 casas lá no último ano fiscal, mas em 2008 foram 3.221 pessoas em 186 casas.

As autoridades não sabem por que o número de esconderijos tem aumentado no Texas, enquanto declina na Califórnia.

"Posso apenas imaginar que atualmente é mais econômico para eles manter as pessoas em uma casa", disse Sean McElroy, agente especial adjunto na agência de Imigração e Fiscalização Aduaneira, em Houston. "Acho que eles estão apenas tentando algo diferente. Eles definitivamente estão sob muita pressão."

Atualmente, os primeiros telefonemas ou dicas que levam às autoridades a encontrar essas casas muitas vezes vêm dos próprios imigrantes detidos ou de seus parentes. Em Edinburg, uma cidade de 77 mil habitantes a cerca de 30 quilômetros da fronteira, os vizinhos disseram que nunca viram ou ouviram nada de errado na casa de concreto branco. A polícia chegou até lá por uma chamada feita ao número de emergência 911 por um homem que estava trancado lá dentro.

Falando espanhol e em voz baixa, ele pediu ajuda.

*Por Manny Fernandez

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