Peruanos confrontam dolorosas cicatrizes de guerra civil

Tentativa de ex-guerrilheiros do Sendero Luminoso de formar partido político reabre debate sobre conflito do passado

The New York Times |

Durante uma campanha militar que ameaçava derrubar o governo, o grupo guerrilheiro maoísta conhecido como Sendero Luminoso aterrorizou o Peru com assassinatos, atentados, decapitações e massacres.

Por isso, os peruanos se surpreenderam quando, no ano passado, um grupo de ex-guerrilheiros começou a coletar assinaturas para criar um partido político e participar do processo democrático que eles mesmos quiseram destruir.

Leia também: Guerrilheiros libertam funcionários sequestrados no Peru

NYT
Menina é vista em vilarejo em Putis, no Peru, palco de massacre em 1984, época de atuação do Sendero Luminoso (16/05)

Entre seus objetivos estava uma anistia para crimes cometidos durante a guerra, que durou do início da década de 1980 até 2000. Isso permitiria a libertação de líderes do Sendero Luminoso que haviam sido presos, dando liberdade inclusive ao fundador do grupo, Abimael Guzmán Reynoso.

Quase uma década depois de a luta ter acabado, a tentativa dos rebeldes de se envolver com a política provocou reações diversas e reabriu um debate nacional sobre o que a guerra significou e como é possível seguir em frente.

"Neste exato momento, nos encontramos diante do desafio de saber o quê devemos lembrar e como devemos nos lembrar", disse Jose Pablo Baraybar, diretor-executivo da Equipe Peruana de Antropologia Forense, que exumou corpos de várias valas criadas durante os anos da guerra.

O que mais alarmou os peruanos a respeito do esforço feito pelo Sendero Luminoso para se reinventar, foi o fato de muitas das assinaturas recolhidas pelos ex-guerrilheiros serem de estudantes universitários jovens demais para se lembrar do tumulto. Para alertar as pessoas sobre o problema, uma emissora de televisão realizou entrevistas com jovens que foram incapazes de identificar uma fotografia de Guzmán, cujo rosto barbudo já foi tão reconhecível quanto o do presidente do país.

"Isso apenas mostrou que muitos jovens não sabem nada a respeito do que aconteceu", disse Fernando Carvalho, diretor nacional do Lugar da Memória, um museu de três andares que está sendo construído em Lima para relembrar o conflito.

Em janeiro, os oficiais eleitorais rejeitaram o esforço feito para a criação de um novo partido do Sendero Luminoso, determinando que o grupo aderiu a princípios antidemocráticos e que não havia conseguido atender a alguns requisitos técnicos da lei eleitoral.

O Peru tem presenciado um crescimento econômico impressionante embora desigual nos últimos anos, mas muitas das injustiças que ajudaram a desencadear o conflito de guerrilha ainda permanecem, inclusive a extrema pobreza nas favelas urbanas e aldeias, e a marginalização das populações indígenas.

Parte da dificuldade que o país enfrenta é que ambos os lados foram responsáveis por abusos horríveis. Isso torna o processo de chegar a um acordo sobre o que aconteceu mais complexo do que em países como o Chile ou a Argentina, que passaram pelo processo de acordo a respeito dos abusos de direitos humanos cometidos pelas ditaduras militares.

Por William Neuman

    Leia tudo sobre: perusendero luminosolima

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG