'Príncipes' da China usam laços familiares para enriquecer

Embora governo tente mostrar Bo Xilai como caso isolado, crescem questionamentos sobre fortunas de parentes de outras autoridades

The New York Times |

AP
Bo Xilai participa do Congresso Nacional do Povo em Pequim, na China (14/04)
A produtora DreamWorks Animation recentemente anunciou uma medida ousada para conseguir entrar na impenetrável indústria de cinema chinesa: um investimento de US$ 330 milhões para abrir um estúdio de animação em Xangai, que poderia um dia se tornar um forte concorrente dos estúdios da Califórnia, que produzem sucessos como "Kung Fu Panda" e "Os Incríveis".

No entanto, o que a DreamWorks não revelou foi um de seus mais novos - e mais importantes - parceiros chineses: Jiang Mianheng, 61, filho de Jiang Zemin, o ex-líder do Partido Comunista e um dos consultores políticos mais poderosos da China nas últimas duas décadas.

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Alguns dos golpes do jovem Jiang incluíram empreendimentos com a Microsoft, Nokia e com a supervisão de um grupo de veículos de investimento apoiados pelo Estado que têm grandes interesses em telecomunicações, semicondutores e projetos de construção civil.

O fato de que um negociador como Jiang esteja envolvido em um negócio com uma empresa como a DreamWorks é quase uma benção na China de hoje. Analistas disseram que esta é a maneira como o Partido Comunista compartilha seus lucros, permitindo que os parentes dos líderes possam lucrar com uma das maiores expansões econômicas da história.

Recentemente, o escândalo envolvendo Bo Xilai, suspenso do Partido Comunista, levou a questionamentos sobre o acúmulo de riqueza de sua família. Autoridades tentam mostrar Bo como um caso isolado de abuso de poder, mas há cada vez mais evidências de que parentes de outras autoridades também acumularam muito dinheiro, muitas vwzes em negócios ligados ao Estado.

"Sempre que algo rentável surgir na economia, eles vão estar na frente da fila esperando para ter sua participação", disse Minxin Pei, especialista em liderança da China e professor na Faculdade Claremont McKenna, na Califórnia. "Eles têm participações em fundos de investimento, estão envolvidos em empresas estatais, na exploração de recursos naturais - basta mencionar um segmento que eles provavelmente participam dele."

Grande parte dos rendimentos adquiridos pelas famílias dos líderes podem até ser perfeitamente legais. Mas é quase impossível distinguir seus ganhos legítimos e ilícitos, pois não há divulgação pública da riqueza dos oficiais e seus familiares. As leis que lidam com conflito de interesse são fracas ou praticamente inexistentes. E as negociações realizadas pela elite política são fortemente censuradas para os meios de comunicação controlados pelo Estado.

As autoridades chinesas e seus familiares raramente discutem assuntos delicados como estes em público. O New York Times fez inúmeras tentativas de falar com os oficiais públicos e seus familiares para este artigo, muitas vezes através de suas empresas. Ninguém concordou em comentar a respeito dos registros. A DreamWorks e a Microsoft se recusaram a comentar seu relacionamento com Jiang Mianheng.

Preocupado com sua imagem e o crescente desgosto público com a corrupção de seus oficiais, o Partido Comunista tem repetidamente revisado seus códigos de ética e tornado mais rígidas suas regras de divulgação financeira. Em sua mais recente versão, em 2010, o partido exigiu que todos os oficiais relatassem os trabalhos, o paradeiro e os investimentos de seus cônjuges e filhos, assim como a sua própria renda. Mas os relatórios efetuados permaneceram em sigilo; propostas para torná-los públicos têm sido repetidamente adiadas pela legislação controlada pelo partido.

É pouco provável que o partido atue de forma mais agressiva porque as famílias das autoridades de alto escalão, tanto as antigos quanto as atuais, hoje estão profundamente interligadas à veia econômica da nação.

"Eles não querem expor nada disso", disse Roderick MacFarquhar, especialista em China da Universidade de Harvard. "Provavelmente resultaria em um tsunami."

Existem também preocupações crescentes de que uma cultura de nepotismo e privilégios que é cultivada no topo do sistema tenha fluído para baixo, permeando as burocracias em todos os níveis do governo chinês.

"Depois de um tempo você percebe que existem muitos 'príncipes' favorecidos por aí", disse Victor Shih, da Universidade Northwestern, perto de Chicago, usando um termo comumente utilizado para descrever familiares dos líderes partidários. "Temos os filhos das autoridades atuais, os filhos de ex-autoridades, os filhos de autoridades locais e centrais, autoridades militares, autoridades da polícia. Estamos falando de centenas de milhares de pessoas, todos tentando usar suas conexões para ganhar mais dinheiro "

Além disso, os familiares dos líderes políticos da China, muitas vezes através de intermediários, são secretamente titulares de ações em dezenas de empresas, incluindo muitas que são cotadas em Hong Kong, Xangai e outros lugares, de acordo com entrevistas realizadas com banqueiros e consultores de investimento.

Mais recentemente, com o Partido Comunista prometendo reformular a mídia do país e suas indústrias culturais, os familiares da elite política da China estão à frente da multidão lutando para adquirir espaço em um novo mercado.

O anúncio feito em Fevereiro sobre o acordo entre a DreamWorks e três parceiros chineses, incluindo a Aliança de Investimentos de Shanghai, foi programado para coincidir com a visita aos Estados Unidos de Xi Jinping, vice-presidente da China e possível próximo presidente. O comunicado de imprensa não menciona que a Aliança de Investimentos de Xangai é parcialmente controlada pelo filho do ex-presidente Jiang Zemin. Uma pessoa que atendeu o telefone no escritório da Aliança se recusou a dar comentários.

Estudiosos descreveram a indústria cinematográfica como o novo parque de diversões dos príncipes. Zhang Xiaojin, o diretor do Centro de Desenvolvimento Político da Universidade de Tsinghua, disse: "Há casos em que os oficiais do ministério da propaganda especificamente pedem para que seus filhos produzam filmes que eles mesmo depois irão aprovar."

Zhao Xiao, um economista da Universidade de Ciência e Tecnologia de Pequim, disse: "Eles estão em qualquer parte, desde que o setor seja lucrativo."

Por David Barboza e Sharon Lafraniere

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