Ativistas usam Eurovision para denunciar abusos no Azerbaijão

Concurso de música com audiência de mais de 125 milhões abriu chance para opositores exporem à Europa repressão de governo Aliyev

The New York Times |

Mais de 125 milhões tiveram o Azerbaijão como foco na sexta-feira durante a final televisionada do Concurso de Música Eurovision, uma competição internacional brega e exagerada que pode fazer "American Idol" parecer tão sóbrio quanto um telejornal da manhã de domingo.

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Multidões lotam passagem para assistir às apresentações dos competidores do concurso de música Eurovision em Baku, capital do Azerbaijão (22/5)
O governo local apostou muito alto na atenção que receberia, esperando mantê-la direcionada exclusivamente ao desempenho dos cantores, que incluíam um grupo de vovós russas, ou à impressionante cidade de Baku, antiga vila litorânea que rapidamente se transformou em uma brilhante petrocapital do século 21.

Mas o concurso Eurovision também atraiu atenção para abusos que grupos de direitos humanos dizem fazer do governo do presidente Ilham Aliyev um dos mais repressivos do mundo. Grupos de vigilância internacionais e ativistas locais afirmam que os opositores são esmagados, as eleições fraudulentas, os direitos individuais de propriedade ignorados e jornalistas que ousam criticar o governo rotineiramente espancados, presos e chantageados.

"Nós todos vivemos com medo e intimidados", disse Shahvalad Chobanoglu, um jornalista do diário opositor Azdaliq, em uma coletiva organizada por uma coalizão chamada Cante para a Democracia. "A realidade do Azerbaijão não pode ser escondida por trás dos novos edifícios. Ser europeu não é apenas sediar um concurso de música europeu. Para ser europeu é preciso possuir valores europeus, viver com o direito europeu, viver com uma cultura judiciária europeia."

Giorgi Gogia, pesquisadora da Human Rights Watch, disse que pelo menos cinco jornalistas e dois blogueiros estão na prisão no Azerbaijão por causa de seu trabalho. Além disso, existem inúmeros casos que não foram resolvidos, incluindo o assassinato no ano passado de Rafik Tagi, um escritor crítico do governo do Azerbaijão e do Irã.

"Vivemos como se fosse na Idade Média", disse Leyla Yunus, diretora de um grupo local de direitos humanos chamado Instituto para a Paz e a Democracia, cujos escritórios foram destruídos pelo governo no ano passado.

Yunus e outros críticos afirmam ter conseguido pouco apoio dos governos ocidentais, em grande parte porque EUA, Israel e Azerbaijão veem o governo de Aliyev como um aliado crucial em seu impasse no Irã e seu programa nuclear , além de suporte para as operações americanas no Afeganistão .

Yunus disse que o Ocidente deveria estar ansioso para promover a democracia no Azerbaijão para evitar que a população que se opõe ao governo Aliyev se aproxime do Irã. "Temos a oportunidade de ser um país democrático, uma ponte entre o Oriente e o Ocidente, cristãos e muçulmanos", disse. "Se perdermos essa oportunidade, seremos o novo Irã."

Na semana passada, as autoridades detiveram várias dezenas de manifestantes que participaram de um comício, mas rapidamente liberaram todos. Na segunda-feira, Ali Hasanov, um oficial de alto escalão local, atacou os críticos do Azerbaijão, incluindo a Anistia Internacional e a Human Rights Watch, que acusou de fazer falsas alegações de abusos no país.

Hasanov também reclamou da cobertura desleal nos meios de comunicação ocidentais, especialmente na Alemanha. Mas desde então os oficiais locais adotaram um tom mais suave.

Na quarta-feira, um enorme contingente de agentes à paisana e policiais uniformizados acompanhou quando membros da Coligação Cante pela Democracia marchavam pelo centro da cidade seguidos por jornalistas, muitos deles estrangeiros.

Em coletiva, Elman T. Abdullayev, porta-voz do Ministério de Assuntos Externos do Azerbaijão, disse que o governo estava disposto a ouvir críticas, mas que também queria reconhecimento por suas conquistas e sua vontade de se abrir para o resto do mundo.

"As conquistas do Azerbaijão nunca foram mencionadas", disse Abdullayev. Ele citou os esforços do país para melhorar a transparência de suas eleições e tornar o acesso à Internet universal.

"O Azerbaijão tem feito muitas coias e fará reformas e transformações e tudo o possível para fazer um dia fazer parte do mundo desenvolvido", disse, acrescentando: "Mas estamos em um processo."

O governo local não economizou na realização do Eurovision, sabendo que para grande parte do mundo as festividades serão uma apresentação ao Azerbaijão, um país predominantemente muçulmano e estrategicamente situado entre a Rússia e o Irã.

*Por David M. Herszenhorn

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