Estudantes palestinos poderão optar por aprender hebraico em colégios da região pela primeira vez em cerca de duas décadas

Há poucas aulas optativas nas escolas do Hamas em Gaza. Os alunos podem estudar saúde e o meio-ambiente ou aprender francês. Em breve, porém, alunos de algumas escolas poderão se inscrever em um novo curso chamado Conheça o Seu Inimigo.

Leia também: Vídeos mostram colonos israelenses atirando contra manifestantes palestinos

Crianças palestinas jogam futebol em Gaza (22/10/2011)
NYT
Crianças palestinas jogam futebol em Gaza (22/10/2011)

Trata-se de uma aula de hebraico, começando com o alfabeto - há um comparativo árabe para que os alunos consigam se lembrar de todas as letras. O curso foi dado pela última vez nas escolas de Gaza há cerca de duas décadas, e no mês passado, após muito debate, as autoridades do Hamas decidiram adicioná-lo ao currículo opcional no lugar do alemão e do turco.

"Através da língua hebraica podemos entender a estrutura da sociedade israelense, a maneira como eles pensam", explicou Mahmoud Matar, diretor-geral do Ministério da Educação do Hamas.

"A língua árabe é algo básico para os israelenses e eles conseguem usá-la para conseguir o que querem", acrescentou Matar. "Vemos Israel como um inimigo. Ensinamos nossos alunos a língua do inimigo."

Apesar de todos os seus problemas - como a pobreza e a circulação restrita -, a Faixa de Gaza é um lugar que se orgulha do alto nível de sua educação: o analfabetismo entre jovens foi inferior a 1% em 2010, segundo o Banco Mundial, e há cinco universidades na região de 360 quilômetros quadrados.

Suas escolas enfrentam muitos desafios, como edifícios dilapidados e classes de 50 ou mais estudantes, além da necessidade de novas escolas para atender a uma população de 1,6 milhão que deverá duplicar em uma geração. As escolas ensinam inglês, embora sem grande sucesso. Nas ruas de Gaza crianças e adolescentes perguntam "como vai você?", em inglês, quando encontram um estrangeiro, mas não têm nenhuma resposta quando este responde: "Bem, e você?"

Agora, sete anos após a retirada de Israel da Faixa de Gaza e cinco anos depois do Hamas arrancar o controle da Autoridade Palestina, os alunos voltarão a estudar hebraico.

Malahi Menna, 14, vai ser uma das primeiras alunas. Seus pais, como muitos aqui, falam um pouco de hebraico: seu pai, como milhares de homens de sua geração, trabalhou com construção em Israel anos atrás e sua mãe estudou a língua na escola.

"O francês não é útil para nós, porque estudamos inglês, e quando estuda-se inglês você não precisa do francês", disse ela. "Já o hebraico é uma língua diferente de pessoas que vivem perto de nós. Os israelenses costumavam vir a Gaza e eles podem voltar no futuro."

Hebba Ayoub, 13, disse que seu professor da oitava série incentivou os alunos a escolher o hebraico e muitos o fizeram. Mas não ela. "Tenho um amigo que fala francês e admiro a língua quando a ouço", disse.

Em Israel, o árabe é ensinado nas escolas há muito tempo: a disciplina é obrigatória no ensino médio, com cerca de 350 mil alunos matriculados, segundo as autoridades

Por Jodi Rudoren

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.