Clínicas secretas cuidam de feridos nos protestos no Bahrein

Presença da polícia em hospitais faz com que manifestantes atingidos desistam de procurar atendimento médico convencional

The New York Times |

Três jovens estavam caídos sobre um tapete, gemendo de dor por causa de ferimentos causados por balas de borrachas em suas bochechas, testas e embaixo de seus olhos. Os protestos de Bahrein deixaram sua marca.

Amigos dos jovens os arrastaram para longe dos confrontos e da polícia de choque, para uma casa nas proximidades. Logo em seguida, era hora de ir embora, mas não para um hospital, já que a polícia também estaria lá. "Ninguém vai para o hospital", disse um manifestante.

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NYT
Manifestante ferido recebe atendimento em clínica improvisada dentro de uma casa em Manama, Bahrein (20/05)

Os homens seguiram para uma das dezenas de casas que estão espalhadas por todo o país, nas quais uma rede crescente e secreta de médicos, paramédicos ou até mesmo pessoas sem nenhuma experiência na área se voluntariam para atender as vítimas dos protestos. As casas não são equipadas para servir de hospitais e muitas vezes não possuem nenhum material a não ser gazes e band-aids.

Para os manifestantes feridos, as casas substituíram o maior hospital público do país, o Complexo Médico de Salmaniya, que tem sido um local crucial para o conflito entre a monarquia do Bahrein e seus adversários desde o início da revolta popular, em fevereiro de 2011. Segundo os ativistas, devido a uma forte presença de seguranças no hospital os manifestantes - ou as pessoas com medo de serem associadas à oposição - têm evitado o local há quase um ano.

Essa relutância, de acordo com autoridades e ativistas, pode ter sido responsável por várias mortes.

No ano passado, o hospital se tornou um símbolo da repressão do Estado à medida que o governo prendia os manifestantes, médicos e enfermeiros acusados de envolvimento nos protestos. Com o decorrer do tempo, o Salmaniya passou a representar o perigoso impasse que assola o Bahrein, marcado por uma discórdia crescente entre a maioria xiita, que se queixa de ser vítima de discriminação por parte de oficiais, e a elite política sunita.

As autoridades continuam a perseguir os médicos xiitas que trabalhavam no hospital, por crimes que incluem conspiração para derrubar o governo. Alguns dos médicos disseram que foram presos simplesmente para que pudessem ser substituídos por sunitas partidários do governo.

Um relatório divulgado na segunda-feira pela organização dos Médicos pelos Direitos Humanos alegou que alguns dos problemas atuais no Salmaniya são frutos da conduta das forças de segurança presentes no hospital. Os entrevistados pelo grupo disseram que guardas pararam carros que chegavam ao local para interrogar seus passageiros. Eles perguntavam de qual aldeia vinham, uma maneira de saber se a pessoa era xiita ou sunita.

Feridos, incluindo aqueles possivelmente atingidos por bombas de gás lacrimogêneo, eram levados para uma sala especial para serem interrogados. Segundo o relatório, o Dr. Waleed al-Khalifa Manea, chefe do hospital, pediu ao Ministério do Interior que supervisiona a segurança no Salmaniya para interromper esta prática.

Oficiais do Bahrain e ativistas parecem concordar que a relutância de ir para o hospital levou a várias mortes, mas uma das razões para esta aversão, de acordo com o relatório da organização dos Médicos pelos Direitos Humanos, é uma diretiva governamental divulgada em janeiro para hospitais e clínicas privadas . A diretiva requer que eles relatem não apenas atividades suspeitas, mas também "acidentes, independentemente das causas”. Um médico disse ao grupo que alguns hospitais privados simplesmente pararam de tratar os manifestantes e muitos deixaram de fora dos registros as causas dos ferimentos.

Esta diretiva, observou o relatório, "não apenas submete as necessidades do paciente às mãos do Estado, mas também propaga o medo entre a população."

O Dr. Ghassan Dhaif, que agora trabalha em um hospital particular, disse ter tratado na semana passada um homem cuja mandíbula tinha sido fraturada durante confrontos com a polícia. Naquela noite, os seguranças do governo interrogaram o paciente e, no dia seguinte, com medo de ser preso, ele foi embora do hospital.

Dhaif, que estava entre os 48 profissionais presos no Salmaniya, disse que devido à demissão de muitos médicos xiitas de seu antigo centro médico, muitos pacientes passaram a receber um mau atendimento.

"Já vi feridas horríveis, mal costuradas", disse. "Eles destruíram os serviços de saúde deste país."

Seu ex-colega, o Dr. Jassim al-Mehza, que ainda lidera a unidade de emergência no Salmaniya, disse que isso não é verdade, afirmando que o hospital sofreu com uma falta de funcionários "em algumas especialidades" nos últimos meses, mas que havia contratado novos médicos.

Em uma entrevista, ele disse que muitos dos manifestantes foram tratados no Salmaniya e não tiveram que passar por nenhum tipo de interrogatório. Segundo Al-Mehza, os seguranças do governo "nunca chegaram a impedir que os pacientes fossem levados à sala de emergência."

"Apenas achamos necessária a presença destes seguranças do governo", disse ele. "É uma reação ao que aconteceu no ano passado."

Por Kareem Fahim

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