Queda de líder político chinês coloca seus aliados em risco

Integrantes do círculo íntimo de Bo Xilai, envolvido em escândalo e afastado do PC da China, temem ser implicados em investigação

The New York Times |

No início deste ano, à medida que uma crise se desenvolvia nos gabinetes do poder de Chongqing, três homens chegaram de avião à cidade em dias diferentes.

Eles eram membros do círculo de Bo Xilai , o aristocrata do Partido Comunista que administrava a cidade, e tinham vindo com o propósito de mediar uma discussão entre Bo e seu chefe de polícia.

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Poucos dias antes, no dia 28 de janeiro, o chefe de polícia Wang Lijun havia intimidado Bo com evidências que ligavam sua mulher à morte de um homem de negócios britânico no ano passado, o que, de acordo com Wang, fez com que Bo desse um soco em seu rosto.

Os três homens - dois deles poderosos empresários e o terceiro um ex-agente da inteligência chinesa - já tinham mediado uma discussão entre Bo e Wang anos atrás. Eles sabiam que os dois tinham personalidades impulsivas e controladoras, portanto seu objetivo era intermediar um acordo de paz.

O mais famoso dos três, Xu Ming, 41, listado pela Forbes como a oitava pessoa mais rica da China em 2005, fez sua viagem em um jato particular. Ele e os outros realizaram reuniões separadas com Bo e Wang.

O dano era irreparável. O ex-agente da inteligência Yu Junshi voltou rapidamente de onde veio com cerca de US$ 200 mil para levar a um banco, e Ma Biao, o outro empresário.

Em seguida, os três fugiram para a Austrália no jato particular de Xu, temendo as consequências de uma possível investigação de Bo.

Os três foram detidos como suspeitos ou testemunhas centrais na investigação realizada pelo governo chinês sobre o abuso do poder por Bo. Sua queda levou a questionamentos sobre a maneira como alguns de seus aliados mais próximos ganharam tanto espaço em Chongqing, que Bo governou por quatro anos.

As investigações sobre esses aliados, que levantaram questões a respeito das relações de Bo com alguns magnatas, baseiam-se principalmente em entrevistas com seis pessoas associadas a seu círculo de oficiais, que falaram sob condição de anonimato por medo de enfrentar o escrutínio oficial, assim como uma revisão de seus documentos financeiros e de suas empresas. Tudo isso revela o funcionamento do tribunal de um dos líderes da China e do pânico que se iniciou quando estes ambiciosos indivíduos perceberam que seu mundo estava prestes a entrar em colapso.

"Estes são homens poderosos, cada um a sua própria maneira", disse uma pessoa envolvida com Yu. "Foi muito estranho, muito anormal a forma como eles agiram na época."

No dia 6 de fevereiro, Wang foi até o Consulado dos Estados Unidos em Chengdu e contou aos diplomatas sobre o que disse ter sido o assassinato do britânico Neil Heywood, que colocou em evidência um dos maiores escândalos políticos da China em décadas: Bo foi removido de seus cargos, seus aliados estão sob investigação e sua esposa é uma das principais suspeitas no assassinato.

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Todos os três tinham muito a perder, principalmente Xu e Ma, pois haviam se envolvido em negócios relacionados à propriedade de terras e temiam ser envolvidos caso Bo fosse investigado por corrupção, disseram seus companheiros. Os homens não puderam ser contatados para comentar o caso e funcionários de suas empresas se recusaram a responder perguntas.

O primeiro a aparecer em Chongqing foi Yu, um "auxiliar" da família Bo. Ele se mudou para a cidade antes da chegada de Bo, em dezembro de 2007, para ser nomeado chefe do partido. Bo o havia enviado para reunir informações e construir relações, de acordo com pessoas que haviam conhecido Yu, um ex-oficial da inteligência para o Exército da Libertação do Povo.

Yu, bem educado e capaz de se adaptar facilmente, frequentou diferentes meios em Chongqing e manteve um perfil mais discreto. Os executivos que procuravam agradar Bo e Wang, por vezes, entravam em contato com Yu. Em 2009, Bo e Wang iniciaram uma repressão aos grupos criminosos que como consequência também foi uma ofensiva contra empresários particulares e inimigos de Bo.

As tensões aumentaram entre Bo e Wang, o chefe de polícia, e as coisas desmoronaram depois de seu primeiro encontro, em 28 de janeiro. Xu implorou para que Yu voasse para Chongqing saindo de Pequim. No dia 31 de janeiro, Yu se reuniu com Wang na sede da polícia. No dia seguinte, seu motorista mudou de carro, foi buscar Ma, o empresário, no aeroporto e levou-o, junto com Yu, para o Hotel City Foggy, onde Bo algumas vezes jantava e realizava reuniões. Ma se encontrou com Bo enquanto Yu esperava no saguão. "Quando Ma Biao saiu, seu rosto parecia pálido", disse um amigo de Yu.

No dia 2 de fevereiro, os dois foram ao banco. Yu disse para Ma levar o saco de dinheiro para dentro do banco sozinho, assim poderiam evitar que os dois fossem vistos juntos pelas câmeras de segurança. Em seguida, eles saíram de Chongqing. Naquele dia, o governo local anunciou que Wang tinha sido removido de seu cargo como chefe de polícia.

Xu chegou no dia 3 de fevereiro e reuniu-se com Bo. Em uma semana, ele e os outros dois foram para Hong Kong partindo do norte da China e continuaram seu voo para a Austrália. "Parecia que eles não iriam retornar," disse uma pessoa próxima.

Mas eles voltaram. Então, no dia 14 de março, à medida que a queda de Bo era cada vez mais dissipada, Yu percebeu que ele e seus comparsas seriam detidos. Ele disse à sua esposa e filho para saírem para passear, assim não testemunhariam a chegada da polícia em sua moradia. Mas a polícia não chegou até mais tarde naquela noite e sua família acabou presenciando sua prisão.

Por Edward Wong e Jonathan Ansfield

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