Possíveis novas regras para viagens levam esperança a Cuba

Cubanos esperam afrouxamento de normas que definem quem pode deixar a ilha, quem pode voltar e em quanto tempo

The New York Times |

Em seu pequeno apartamento em Havana, Niurka sonha em um dia visitar Miami para ver a casa de seu filho e a universidade na qual ele estuda Medicina. Ela também quer visitar o túmulo de seu falecido pai e conhecer os filhos de seu irmão. "A necessidade econômica separou nossa família", disse. "Quero uni-la novamente."

Fazer a viagem de 30 minutos até a Flórida não vai ser fácil para Niurka, uma médica de 45 anos cujo irmão deixou Cuba mais de uma década atrás, seguido por seu pai e, cinco anos atrás, pelo filho dela, na época com 24 anos. Como todos os cubanos, ela precisa de permissão para deixar o país, mas como membro do zelosamente guardado corpo médico do país ela pode ser forçada a esperar anos por uma autorização de saída - ou mesmo nunca obtê-la.

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Cubano é atendido em escritório de imigração em Havana, Cuba

Por isso, Niurka, que pediu que seu nome completo fosse ocultado por medo de estragar sua oportunidade de viajar, espera ansiosamente por uma prometida reforma dessas regras que por meio século têm controlado quem pode ou não deixar a ilha.

Qualquer afrouxamento dessas regras seria um passo no sentido de eliminar uma das restrições mais profundamente ressentidas às liberdades dos cubanos e um marco na gradual marcha do presidente Raúl Castro em direção à reforma econômica e social. As autoridades cubanas têm dado a entender há anos que tais mudanças podem estar chegando, mas o burocrático sistema que limita as viagens ao exterior continua a existir.

A reforma poderia estimular a migração econômica e aprofundar os laços entre a ilha e os dois milhões de membros da diáspora, cujo dinheiro e experiência empresarial podem ser vitais ao plano do governo de drasticamente aumentar o setor privado do país.

"Se houver uma mudança significativa na lei, isso será um divisor de águas", disse Arturo López-Levy, um acadêmico de origem cubana que deixou a ilha há dez anos e atualmente trabalha na Universidade de Denver.

"Isso poderia liberar todo o potencial dos programas de reforma e dar poder aos atores que capacitam a reconciliação entre os cubanos na ilha e na diáspora", explicou. "Este é um momento crítico."

Milhares de cubanos foram para o exílio ou migraram nas últimas cinco décadas, muitos destes para os Estados Unidos, já que o país prometeu residência a todos os cubanos que cheguem a suas terras. Milhares morreram tentando cruzar o estreito da Flórida em pequenos barcos. Muitos cubanos agora pagam contrabandistas para levá-los aos Estados Unidos através do México, mas a Guarda Costeira americana continua a encontrar candidatos a imigrantes no mar. Neste mês, mais de 50 cubanos foram encontrados ao largo da costa da Flórida e devolvidos a Cuba.

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Houve uma onda de esperança a respeito das regras de viagem quando Raúl Castro prometeu, em agosto passado, que o governo estava trabalhando para "atualizar" a lei. Além disso, em entrevista publicada este ano, Ricardo Alarcon, presidente do Parlamento cubano, afirmou que governo planejava uma reforma "profunda e radical" nos próximos meses.

"Uma coisa é um país estrangeiro não deixá-lo entrar e outra completamente diferente é o seu próprio país não deixar você sair", disse Amparo Garcia, uma vendedora de joias cuja filha de 23 anos está no processo de obtenção de uma autorização para visitar seu pai em Angola."Se você tem o dinheiro e quer viajar, você deve ser capaz de comprar um bilhete e ir para o aeroporto. Isso é simples."

De acordo com as regras atuais, os cubanos que desejam deixar o país enfrentam uma cara e desconcertante burocracia.

Para obter um visto de saída de Cuba, eles muitas vezes têm que fornecer uma carta de convite do país que pretendem visitar, o que eleva o preço de todo o processo a mais de US$ 300 - uma quantia significativa em um país em que o salário médio é de cerca de US$ 20.

Muitos cubanos obtêm permissão para partir em dias ou semanas, mas o governo restringe fortemente a saída de crianças, profissionais da saúde e membros das forças de segurança. Niurka, por exemplo, deve ser "liberada" do seu dever pelo Ministério da Saúde Pública antes de poder solicitar uma autorização de saída.

O governo também nega a partida a dissidentes ou críticos, como a ativista e blogueira Yoani Sánchez, que já recebeu um “não” 19 vezes.

Uma vez no exterior, os cubanos têm de pagar uma multa ao consulado mais próximo caso permaneçam por mais de 30 dias. A taxa é de cerca de US$ 60 por mês na Europa e US$ 150 por mês nos Estados Unidos. Após 11 meses no exterior, os cubanos costumam perder seus direitos como cidadãos.

Por Victoria Burnett

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