Nova primeira-dama francesa procura seu próprio caminho

Companheira de Hollande, jornalista Valérie Trierweiler diz que não se acostuma a ser financeiramente dependente e busca modelo ativo

The New York Times |

Valérie Trierweiler enfrenta uma situação incomum. Duas vezes casada e divorciada, ela cobriu política francesa como jornalista por mais de 20 anos, sem ideia de que um dia se tornaria a primeira-dama do país, muito menos quando se apaixonou por François Hollande, um jovial político de esquerda que não parecia nada presidencial.

Hollande: Novo governo francês começa com redução de 30% dos salários do Executivo

"Me dá vontade de rir quando penso nisso", disse Trierweiler em entrevista por telefone.

Mas Hollande foi eleito no dia 6 de maio e foi empossado na terça-feira, dia 15, e agora Trierweiler - a quem ele chama de "o amor da minha vida" - está preocupada com a preservação de sua independência ao mesmo tempo que apoia a nova empreitada de seu companheiro.

"Na França, a primeira-dama não tem status, por isso não se espera que ela faça qualquer outra coisa", disse Trierweiler. "Mas eu não consigo pedir que François Hollande, que não é o pai dos meus filhos, que me sustente financeiramente."

Na semana passada, ela disse ao jornal Le Figaro que teria de "pensar" sobre o seu papel futuro. A revista Elle e outros meios de comunicação já citaram ela dizendo que continuará a trabalhar como jornalista.

Trierweiler e Hollande são o primeiro casal não casado a ocupar o Palácio do Eliseu, mesma situação que acontece com o novo presidente da Alemanha, Joachim Gauck, cuja companheira também é jornalista. O fato dessas eleições acontecerem agora é um sinal de como as atitudes europeias a respeito das famílias mudaram.

Mas elas geram algumas preocupações sobre o protocolo - como viajar juntos para lugares como a Arábia Saudita, por exemplo, onde "a coabitação entre solteiros não é aceita". Tanto na França quanto na Alemanha, alguns têm sugerido que os casais presidenciais deveriam se casar agora, mas em nenhum dos casos isso parece provável de acontecer.

Trierweiler "está com medo de ser a esposa de um presidente e está à procura de modelos", disse Laurent Binet, que acompanhou o casal de perto durante a campanha eleitoral e está escrevendo um livro sobre essa trajetória. "Ela se vê como uma mulher ativa."

Origem

Nascida em 1965, de um pai que perdeu uma perna na explosão de uma mina terrestre em 1944 e de uma mãe que trabalhava como caixa na pista de patinação no gelo local, Trierweiler cresceu modestamente com cinco irmãos em um projeto habitacional em Angers, no oeste da França. Ela estudou ciência política na Sorbonne e, em seguida, aceitou um emprego como repórter em uma revista política semanal onde ficou conhecida por trabalhar duro. Posteriormente ela foi trabalhar na revista Paris Match.

"Valérie é uma mistura muito interessante de orgulho, força e fragilidade", disse Philippe Labro, vice-presidente do canal de TV Direct 8. "Ela cuida de sua própria identidade e adora seu trabalho."

Labro contratou Trierweiler para o canal em 2005, logo depois de ela se envolver com Hollande.

Em 2005, Trierweiler parou de trabalhar com política na Paris Match, mas continuou seus programas no canal Direct 8, algo que na França não é considerado um potencial conflito de interesses.

"Precisamos de regras, elas existem, mas a hipocrisia reina solta", ela disse ao Le Journal du Dimanche, em 2010. "Todos jornalistas têm opiniões, eles votam, todos têm simpatia, amizade. Mas eles não precisam justificar nada disso. Acreditamos na sua integridade e confiamos neles com razão".

Elegante e fotogênica, Trierweiler começou a atrair mais atenção no ano passado, ao ser vista aplaudindo e beijando Hollande em comícios de campanha - isso sem mencionar seus comentários ocasionalmente ácidos no Twitter.

AP
Valérie Trierweiler (D) cumprimenta a ex-primeira-dama francesa Carla Bruni
Quando a Paris Match colocou sua foto na capa de março, Trierweiler escreveu no Twitter: "Que choque eu tive ao me ver na capa da minha própria revista", acrescentando: "Parabéns a Paris Match por seu sexismo."

No domingo da vitória, ela parecia feliz, embora um pouco chocada, quando seu parceiro fez o discurso de vitória na cidade de Tulle.

Embora Hollande tenha sua personalidade própria bem definida, a influência de Trierweiler é perceptível. Na sexta-feira, ela confirmou ao Le Figaro que pediu a Julien Dray, um polêmico líder socialista, que fosse embora da comemoração de vitória de Hollande juntamente com sua equipe no domingo. Entre os dois turnos da eleição presidencial, Dray atraiu críticas por ter convidado Dominique Strauss-Kahn, o antigo candidato favorito dos socialistas, para sua festa de aniversário em um bar de má reputação.

Trierweiler conheceu Hollande em 1988, e os dois se tornaram amigos em 1997, quando ela estava cobrindo o Partido Socialista para a Paris Match e era casada com um colega, Denis Trierweiler. "François Hollande e eu fomos cúmplices desde o início", disse Trierweiler. "Mas havia algo mais do que apenas amizade."

Eles compartilhavam uma paixão por política e falavam ao telefone durante horas. Hollande, na época era líder do partido e mantinha um relacionamento com Ségolène Royal, na época ministra do gabinete do primeiro-ministro Lionel Jospin. Royal concorreu à presidência em 2007, perdendo para o homem que Hollande derrotou neste ano, Nicolas Sarkozy.

'Pessoa comum'

Trierweiler, que tem três filhos adolescentes e tenta mantê-los longe dos olhos do público, descreveu-se em entrevista como uma mulher comum que têm se esforçado para tornar sua vida profissional e pessoal compatíveis.

AP
Valérie Trierweiller chega para cerimônia de transição no Palácio Eliseu (15/5)

"Eu tive o mesmo destino de muitas mães que trabalham fora, me senti culpada como elas", disse Trierweiler. "Eu tirava as quartas-feiras de folga para ver meus filhos e fazer crepes para eles".

Embora longe de serem tradicionais, Hollande e Trierweiler são um casal amoroso, segundo pessoas que os conhecem. A questão agora é como Trierweiler conseguirá reinventar o papel de primeira-dama para que se torne confortável para ela.

"Eu não fui criada para servir um marido", disse ela. "Eu construí minha vida inteira sobre o conceito de independência."

*Por Maia De La Baume

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG