Longe da guerra, pistas de boliche criam esperança de novo Afeganistão

Atividade que reúne homens, mulheres e crianças em Cabul ocupa vácuo de entretenimento no país em conflito

The New York Times |

Atrás de uma porta preta no centro de Cabul existe um lugar diferente de qualquer outro desta cidade e, talvez, do país inteiro.

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Trata-se de uma casa de entretenimento que proíbe o consumo de álcool - seguranças preparados mandam embora qualquer pessoa com vestígios de bebidas alcóolicas em sua respiração. Os clientes precisam entregar até mesmo seus cigarros, que são guardados até a sua saída, juntamente com os habituais armamentos carregados por alguns afegãos.

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Frequentadores do primeiro boliche do Afeganistão, aberto em Cabul em 2011
Do lado de fora, existe apenas um sinal sobre a porta onde se lê Strikers. Lá dentro, porém, um outro mundo.

Um restaurante espaçoso e meticulosamente limpo espera os clientes. Passando por uma parede com pequenos compartimentos contendo sapatos de boliche novos em diversos tamanhos, chega-se ao salão principal, equipado com 12 pistas e bolas para todos os gostos. Um sinal colorido acima dos pinos oferece: "Anuncie aqui".Bem-vindo ao primeiro boliche do Afeganistão.

A inauguração do boliche foi uma novidade que os afegãos aceitaram de braços abertos, construído com dinheiro afegão e não com ajuda internacional. Para tornar as coisas ainda melhores, a proprietária é uma mulher de 28 anos, Meena Rahmani, que tem conseguido manter sua equipe de homens trabalhando apesar dos preconceitos da sociedade afegã contra as mulheres.

Eu sabia como seria difícil", disse ela. "Eu sabia que ficaria em uma situação difícil, mas tenho meus direitos e se eles se ofenderem problema deles. Eu sou a chefe. "

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O Strikers foi aberto no ano passado em Cabul
No começo, alguns trabalhadores foram demitidos por não aceitarem suas decisões. "Eu fiz eles me respeitarem", disse ela.

Rahmani cresceu como refugiada no Paquistão e, posteriormente, no Canadá. Ela se casou com um jovem afegão e eles viviam em Toronto até decidirem voltar para Cabul no ano passado.

Os longos invernos canadenses indiretamente serviram de inspiração para o boliche - além do esqui e do boliche, não havia muito para se fazer no Canadá, ela contou. Quando chegaram a Cabul, a primeira coisa que ela percebeu foi que havia poucas oportunidades de se divertir. "Eu realmente não encontrei nada no setor de entretenimento, onde todos, crianças, mulheres e homens poderiam passar tempo juntos e se divertir", disse ela.

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Clientes do Strikers jogam boliche em Cabul
Assim, ela persuadiu seus pais a deixá-la vender algumas terras da família em Cabul (seu pai é médico e sua mãe, professora universitária), e ela conseguiu US$ 1 milhão para trazer o equipamento necessário da China e três técnicos para treinar seu pessoal.

Entretenimento

Os afegãos aderiram rapidamente, e logo as quintas e sextas-feiras se tornaram noites de boliche. Mesmo à tarde em um dia de trabalho comum é possível encontrar grupos de jogadores no local. O uso das pistas custa US$ 35 a hora, um valor caro para os padrões afegãos, apesar de uma pista acomodar seis jogadores.

Mas nem tudo foi fácil. Rahmani ficou chocada com a corrupção desenfreada que teve de enfrentar das autoridades locais para conseguir licenças e permissões. "Depois do Canadá, isso era algo estranho para mim", disse ela. "Cada passo que eu dava, eles pediam dinheiro. Todos os dias, batendo na porta e pedindo dinheiro."

Seus guardas pegaram dois homens roubando pequenas peças de carros dos clientes, algo que gera lucros na capital afegã. Eles entregaram os homens para a polícia, mas apenas um quarteirão depois as autoridades aceitaram propina para libertar os ladrões.

Na casa, Rahmani logo percebeu que precisava de uma mão forte com alguns dos clientes e colocou um cartaz que alertava: "Não mostre o seu lado feio para a nossa equipe de de manutenção da paz". Essa equipe inclui seguranças à paisana no boliche e uma equipe de vigilantes na porta que garante que os homens entrem apenas para jogar - e que se estiverem acompanhados de mulheres, que provem que são parentes.

"Estou muito consciente da nossa cultura e valorizo o que é da nossa cultura", disse Rahmani. Há poucas e preciosas atividades em Cabul que envolvem ambos os sexos, mesmo em ambientes familiares, e a última coisa que ela gostaria de ver é uma fatwa contra o boliche.

É óbvio, mesmo para os novos visitantes, que as pessoas estão se divertindo nas pistas, apesar dos poucos pontos que ás vezes fazem. "É legal", disse Ali Sadaqat, que descartou sugestões para que utilizasse um professor da casa para aprender a jogar a bola melhor. "Essa é a primeira vez que os afegãos estão jogando um jogo que não seja críquete", disse ele.

Rahmani disse estar ciente de que abriu a pista de boliche em um momento difícil, e não apenas por causa da burocracia e da corrupção. "A guerra no Afeganistão tem se arrastado desde antes de eu nascer. Nós não temos ideia se ela um dia vai acabar", explicou. "Mas nós precisamos seguir em frente."

*Por Rod Nordland

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