Violência deixa rastro de dúvidas e dor no México

Famílias e amigos de vítimas percebem distanciamento de conhecidos que acreditam em envolvimento com grupos do narcotráfico

The New York Times |

Depois que seu filho Alfredo foi morto no ano passado em sua loja de autopeças, Carmen Plascencia de Carrillo percebeu que duas de suas irmãs haviam ignorado o velório e o funeral.

"Talvez seu filho estivesse envolvido em outras coisas", algumas pessoas disseram a Carrillo.

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Rafael Carrillo visita túmulo do irmão Alfredo, morto no ano passado em sua loja de autopeças, em Colima, no México
Um irmão da vítima, Rafael Carrillo, percebeu que vizinhos mantinham distância dele. Ele também foi informado que não deveria ir ao casamento de um primo por medo de que pudesse representar um risco a outros convidados. A barraca de comida de sua irmã passou por um declínio no número de clientes.

Com mais de 50 mil assassinatos nos últimos seis anos ligados à guerra das drogas do México, a quantidade de sofrimento enfrentado pelos sobreviventes não pode ser exagerada. Mas enquanto lamentam a perda de seus entes queridos, mexicanos em luto também precisam lidar com a suspeita daqueles que questionam se as vítimas também eram criminosos.

"Agora, mães choram ao lado de viúvas e crianças que nunca conhecerão seus pais", disse Rafael Carrillo. "Além disso, a sociedade decidiu nos prejudicar com comentários ruins."

Como na grande maioria dos assassinatos do México, ninguém sabe quem matou Alfredo Carrillo, 42 anos, no dia 12 de fevereiro de 2011, ou por que. Será que ele ou um de seus três empregados mortos naquela manhã estavam envolvidos com o crime organizado, eram vítimas de extorsão ou fizeram inimigos desconhecidos devido a uma disputa mais pessoal?

Traços familiares

O ataque teve as marcas familiares de muitos fuzilamentos em massa que acontecem no México. Uma caminhonete chegou à loja com um "grupo armado" e logo depois de uma série de balas três pessoas foram mortas e outra morreria logo em seguida.

As dúvidas assombram as famílias e a falta de prisões e condenações priva os sobreviventes das respostas necessárias para argumentar contra os rumores e insinuações que inevitavelmente acontecem.

"O México é cheio de histórias como a minha", disse Rafael Carrillo.

Perto do aniversário da morte, ele criou uma página no Facebook, Colima Nomasdolor (Colima Sem Mais Dor), em parte para aliviar sua angústia e frustração.

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Carmen mostra fotografia do filho morto Alfredo, que se tornou suspeito de envolvimento com o crime para alguns
Mas como a maioria das famílias das vítimas, ele sofre em silêncio com medo de se tornar um ativista e acabar morto. Em dezembro de 2010, uma mãe que exigia justiça pela morte de sua filha foi morta a tiros.

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Alfredo Carrillo está enterrado em um antigo cemitério da cidade. Sobre a sepultura, decorada com três estátuas de galos, estava uma pintura deixada por uma sobrinha como ode a seu tio. "Obrigado por se preocupar comigo, obrigado por me dar confiança."

Recentemente, Rafael Carrillo visitou o local, onde lutou para resumir seus sentimentos antes de dizer: "Dor e desamparo. É isso o que se sente."

Mais tarde, ele compartilhou uma carta escrita ao irmão falecido depois do aniversário de sua morte."Algum dia, em breve, todos nós estaremos juntos novamente", ele escreveu, “mas não haverá aqueles que tecem comentários ruins, fazem especulações e têm inveja."

*Por Randal C. Archibold

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