Do Texas, uma voz defensora da liberdade da China

Pastor de origem chinesa, Bob Fu é ativista influente que auxiliou dissidente cego Chen Guangcheng a ter voz no Congresso dos EUA

The New York Times |

Quando o ativista chinês cego Chen Guangcheng roubou a cena em uma audiência de emergência no Congresso neste mês ligando para a Câmara no meio de um programa de televisão ao vivo, poucas pessoas notaram quem segurava o celular.

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Mas as pessoas da comunidade de dissidentes chineses nos Estados Unidos e seus apoiadores imediatamente reconheceram o homem, que havia arranjado tudo para que a voz de Chen fosse transportada para Washington diretamente de Pequim: Bob Fu, um pastor de origem chinês que trabalha de uma casa invadida em frente a uma loja que vende tudo por US$ 1 em Midland, no Texas.

NYT
O pastor nascido na China Bob Fu se tornou influente desde que se mudou para Midland, no Texas
"Quando se trata de contatos na China, a rede Bob é imbatível", disse o deputado Christopher H. Smith, republicano de Nova Jersey que convocou a audiência para fazer pressão sobre o governo Obama e ajudar a garantir que Chen, um advogado autodidata, poderia sair da China para estudar Direito nos Estados Unidos.

Se o drama sobre o destino de Chen revelou a capacidade de repressão da China e gerou um problema diplomático para a Casa Branca, ele também serviu como uma espécie de bênção para Bob Fu, 44 anos. Sua organização, a ChinaAid, está à frente de um movimento crescente entre os cristãos americanos que buscam a liberdade religiosa na China.

O foco também destacou o papel cada vez mais desafiador que os cristãos chineses que são advogados, pastores e membros da igreja têm na luta pelos direitos humanos no país, chegando a extrair dissidentes quando a situação se torna intensa demais.

Alguns críticos dizem que o papel de Bob Fu como defensor do exercício da liberdade religiosa é uma faca de dois gumes. Ele ampliou a conscientização sobre abusos dos direitos humanos, mas sua relação próxima com republicanos e cristãos evangélicos, segundo críticos, pode alimentar temores da China de que forças estrangeiras estão conspirando para subverter o Partido Comunista.

"O coração de Bob está no lugar certo, mas, às vezes, em seu zelo para atrair a atenção para esses problemas ele é sugado para o turbilhão partidário de Washington", disse um defensor dos direitos humanos americano que trabalha em estreita colaboração com o ChinaAid e falou sobre condição de anonimato.

Evangélicos

Ex-professor de inglês que fugiu da China em 1997, Bob Fu, cujo nome chinês é Xiqiu Fu, mudou para a Bacia Permian, uma extensão árida do oeste do Texas que produz mais de 15% do petróleo e gás dos Estados Unidos. Desde que um grupo de pastores convidou ele e sua família a se mudar para Midland há oito anos, Fu foi abraçado pelos cidadãos evangélicos da próspera região.

"Bob realmente nos educou a respeito das coisas terríveis que estão acontecendo na China", disse Doug Robison, um magnata do petróleo e presidente da Associação de Petróleo da Bacia Permian. "A sua mensagem é bastante convincente."

Fu, um orador frequente de megaigrejas da cidade, raramente tem dificuldade em conseguir investimento. Em uma festa de gala no mês passado, Fu esperava conseguir US$ 200 mil e saiu com quase o dobro dessa quantia. "Algumas vezes por ano, estranhos entram no meu escritório e assinam cheques de US$ 100 mil", explicou Fu na semana passada.

O espaço conquistado pela ChinaAid no Capitólio e suas menções na mídia atraíram ataques de grupos defensores dos chineses que depreciam Fu por defender cristãos perseguidos. Outros criticaram Fu por ser excessivamente partidário, apontando declarações que fez ao governo Obama, que acusou de "abandonar" Chen.

Pragmatismo

Fu diz que sua estreita relação com os republicanos é uma questão de pragmatismo. Os democratas, segundo ele, nem sempre se interessam por sua história. "Eu nunca tentei ficar do lado de um partido", disse ele. "Fazer isso seria um desastre para o nosso movimento."

Atualmente, o grupo tem cinco funcionários e um exército de voluntários. Na China, a rede de amigos e simpatizantes de Bob Fu cresce cada vez mais. Ao longo dos anos, eles transportaram secretamente uma dúzia de pessoas para fora do país, incluindo o pai de Fu, de 70 anos de idade, que havia sido brutalizado pela polícia em represália por atividades de seu filho.

O resgate mais recente foi de Li Jun, um investidor imobiliário de Chongqing que diz ter sido torturado pelas autoridades que buscavam se apropriar de seus negócios. A tenacidade do grupo e sua habilidade organizacional alarmou o Partido Comunista, e as autoridades parecem estar especialmente irritadas com Fu.

"Estou me encontraria com eles para conversar ou negociar", disse Fu, referindo-se a sondagens de oficiais de segurança chineses de alto escalão. "Encontraria eles em qualquer lugar. Menos na China."

*Por Andrew Jacobs

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