Em meio à melancolia, Ciudad Juárez revela sinais de esperança

Eventos, como desfile de coleções de estilistas locais, estimulam cidade conhecida por ser uma das mais violentas do México

The New York Times |

A multidão brindava com cervejas enquanto as modelos desfilavam na passarela em vestidos temáticos criados por estilistas locais especialmente para mostrar ao mundo que a Ciudad Juárez também tem criatividade, e não apenas homicídios.

Fronteira: 'Anjos' pedem fim da violência na mexicana Ciudad Juárez

"A cidade tem esperança agora", disse o estilista Eli Valle. "As empresas estão abrindo. As pessoas abandonaram seu medo."

NYT
Modelos se arrumam em camarim antes de desfile em Ciudad Juárez
Essa ainda é uma cidade muito violenta - pelo menos oito pessoas foram mortas no fim de semana. Mas, em geral, as taxas de homicídio diminuíram significativamente desde o seu pico em 2010, e os jovens em especial estão mais corajosos, participando de coletivos de arte e lotando as casas noturnas que reabriram recentemente na cidade.

Os organizadores do desfile, um grupo chamado Amor por Juárez, que se inspirou na campanha I Love New York, querem abrir uma boutique de roupas no centro de Juárez no próximo ano.

"Nosso projeto tem muito valor, já que tenta melhorar uma zona de conflito que está tendo um renascimento", disse Ricardo Fernandez, presidente do Amor por Juárez.

Desfiles de moda e aulas de arte por si só não resgatarão a cidade, é claro, e alguns céticos afirmam que projetos assim são superficiais e escondem problemas mais preocupantes como a corrupção judicial e inépcia policial.

Ainda assim, esses são passos importantes a serem tomadas por uma cidade que tem abandonado os jovens à sua própria sorte, enquanto as mulheres locais operam máquinas em fábricas montadoras de telefones BlackBerry e autopeças destinados a mercados estrangeiros. "Conseguimos montar uma comunidade que oferece atenção para um dos subgrupos da população que antes eram negligenciados", disse Vargas.

Festa

A mudança começou em janeiro de 2010, quando 15 pessoas foram mortas a tiros em uma festa no bairro de Villas del Salvarcar. A maioria das vítimas eram estudantes do ensino médio que foram confundidos por membros de uma gangue.

Desde o massacre de Salvarcar, centenas de jovens formaram uma rede que está rapidamente expandindo e ganhando força política e que se destina a criar programas sociais para jovens adultos.

No mês passado, por exemplo, 40 grupos de grafiteiros competiram em um parque vazio armados com spray de tinta. Os desenhos feitos em tela mostraram uma nova geração menos preocupada com a violência do que com o meio ambiente e a situação das comunidades indígenas da região.

NYT
Modelo do desfile de estilistas locais de Ciudad Juárez
Mas o espírito de comunidade não chega a todos. Edwin Garay, 19 anos, e Brisa Delgado, 17 anos, sobreviventes do tiroteio de Salvarcar, foram transferidos pelo governo para um bairro remoto depois que foram feridos.

Agora, Garay, que foi baleado 12 vezes na perna, e Brisa, cuja cabeça foi atingida de raspão por uma bala, raramente passam tempo com pessoas de sua idade. Nenhum deles ouviu falar da rede de jovens e seus projetos.

Apesar das afirmações recentes do governo de sucesso na melhoria da segurança, há indicações claras de que o problema não desapareceu. Em janeiro, homens armados mataram oito policiais e a cidade teve de alojar seus policiais em hotéis para protegê-los contra ataques.

Em meio a violência dessa magnitude, Valle, que baseou sua coleção de moda na ideia de renascimento, considera suas criações como a sua parte na transformação da cidade. "Quero incentivar o lado bom das pessoas. A paz, sem forças agressivas."

*Por Karla Zabludovsky

    Leia tudo sobre: méxicociudad juarezmodadesfilecrime

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG