No Iraque, Montéquios e Capuletos são xiitas e sunitas

Montagem do clássico 'Romeu e Julieta' de Shakespeare se adapta à realidade iraquiana e traz elementos como homens-bomba e conflitos religiosos

The New York Times |

Os jovens amantes não tiram suas próprias vidas com veneno e adaga, mas morrem nas mãos de um homem-bomba. Os Montéquios e Capuletos não são divididos apenas pelo sobrenome de suas famílias, mas também por suas seitas religiosas. Além disso, o diálogo da adaptação iraquiana de "Romeu e Julieta" é salpicado com referências à empresa americana Blackwater, aos iranianos e ao esforço de reconstrução levado pelos Estados Unidos.

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Depois de uma apresentação recente no Teatro Nacional de Bagdá, onde as artes dramáticas já foram degradadas para servir como propaganda de um ditador, a plateia deixou o local falando sobre o retorno da arte séria para a capital iraquiana. Mascarado como um clássico de Shakespeare, esta foi uma representação animada de suas próprias vidas ao longo dos últimos nove anos.

AP
Sarwa Rasool representa Julieta e Ahmed Salah Moneka interpreta Romeu em montagem adaptada no Teatro Swan, em Strafford upon Avon
"Foi sobre a nossa realidade, o assassinato que aconteceu entre os sunitas e xiitas", disse Senan Saadi, um estudante universitário que estava na plateia.

O assassinato, é claro, ainda acontece. Na manhã seguinte ao espetáculo, explosões foram ouvidas em Bagdá. Até o fim do dia, uma série de ataques havia deixado quase três dezenas de mortos em todo o país.

O elenco da peça, incluindo atores iraquianos veteranos e jovens, se preparava para deixar o país para o Festival Mundial de Shakespeare em Stratford upon Avon, cidade natal do autor britânico.

"Romeu e Julieta em Bagdá" estreou na quinta-feira, dia 26 de abril, no festival e permanecerá em cartaz por dez dias como parte do programa cultural dos Jogos Olímpicos de Londres. Sua narrativa sobre um amor condenado por disputas sectárias consegue situar quase todos os elementos da experiência coletiva iraquiana dos dias de hoje.

A peça rendeu muitas risadas - especialmente sobre a personagem Paris, nesta versão um terrorista da Al-Qaeda caracterizado de maneira exagerada - e muitas lágrimas, algo que talvez seja um pequeno sinal de que a sociedade iraquiana está mais apta a lidar com os traumas da guerra.

"Romeu não vê Julieta por nove anos", explicou Monadhil Daood, um famoso dramaturgo e ator iraquiano que está dirigindo a peça e passou dois anos escrevendo o roteiro. "No seu primeiro encontro eles falam sobre o conflito entre sunitas e xiitas."

Elementos familiares

As palavras sunitas e xiitas não são mencionadas explicitamente, mas são simbolizadas de maneira claramente reconhecível para o público iraquiano. Capuleto, o pai de Julieta, é apresentado como sunita por seu keffiyeh xadrez vermelho e branco. O pai de Romeu, Montéquio, usa um lenço preto e branco usado mais comumente por xiitas.

"Minha mensagem é que o amor é melhor do que o conflito entre as famílias", disse Daood.

Na trama estão os pequenos detalhes da vida no Iraque. Um general americano faz uma pequena participação. Disparos de metralhadora servem de trilha sonora em alguns momentos. Como o imaginário sexual do discurso de Mercutio no original de Shakespeare foi considerado muito arriscado para essa audiência conservadora, ele foi trocado por uma história folclórica iraquiana sobre um besouro em busca de marido.

"É um retrato da realidade iraquiana e uma mensagem para o mundo", disse Ahmed Moneka, 24 anos, que interpreta Romeu. "A peça foi escrita de uma maneira que toca nas raízes da realidade iraquiana".

Ao falar sobre o elenco, ele afirmou: "Nós todos passamos por isso. Passamos por essas crises e conflitos sectários. Há muita ignorância aqui."

Sarwa Malik, 23 anos, interpreta uma Julieta sunita, mas é xiita e curda. Ela se baseou em sua própria experiência de amor proibido para representar a personagem. Três anos atrás, quando estava na faculdade, ela se apaixonou por um homem jovem sunita. A relação foi ainda mais complicada pelo fato de ela ter dinheiro e ele não. Eles se encontravam em locais escondidos do campus e escreviam cartas de amor. "Minha família sempre dizia, 'Não fique com esse cara'", lembrou.

Hoje eles estão casados. "Há um muitos homens, mulheres e meninos e meninas que estão apaixonados e não podem ficar juntos", disse ela. "Eu era uma dessas pessoas. Se elas realmente se amam, precisam saber que podem quebrar esses tabus".

*Por Tim Arango

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