Programa de televisão iraquiano ousa falar sobre sexo

Atração ganha fãs com piadas populares entre jovens de qualquer lugar, mas nas quais censores e grupos religiosos não veem graça

The New York Times |

O conceito do programa de televisão era subversivo para os padrões iraquianos: uma comédia ousada o suficiente para fazer piadas sobre sexo e relacionamentos pessoais.

"A ideia deste programa começou com um bando de rapazes sentados em uma roda, bebendo e contando piadas", disse Gazwan Shawi, o produtor. Mas no Iraque, como em qualquer lugar, as piadas entre jovens bêbados tendem ser sobre um único tema: sexo.

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NYT
Os apresentadoraes do programa "Alguém Aí?", que ousa falar sobre sexo na TV iraquiana

"Entre nós", disse Shawi, falando sobre os apresentadores do programa e membros da equipe, "sempre falamos sobre essas coisas. Por que não podemos deixar o público ver essa realidade?"

Eles fizeram exatamente isso e atraíram uma enorme audiência para o programa "Alguém Aí?", cujo nome curioso deriva de uma piada local. O programa, transmitido nas noites de domingo, se tornou um sensação nacional e o principal tema de conversas nas manhãs de segunda-feira. DVDs piratas de episódios anteriores animam os vendedores ambulantes em mercados da cidade.

Mas as piadas não são tão engraçadas na opinião dos censores do governo e de grupos religiosos do país. O programa voltou a ser gravado recentemente após uma pausa motiva por queixas da comissão de mídia do governo. Depois que um grupo religioso protestou diante do estúdio, a emissora responsável pelo programa concordou em retirar do ar uma apresentadora cuja dança havia ofendido os mais devotos.

O programa é popular e controverso, revelando as profundas divisões que marcam a sociedade iraquiana sobre os limites da liberdade de expressão no país. No Iraque, a lei islâmica está consagrada na Constituição ao lado de garantias de liberdades pessoais.

O formato é simples: cinco ou seis homens sentados em cadeiras amarelas no centro de um grande estúdio, bebendo em canecas de café e fazendo piadas. A plateia assiste a tudo. Muitas vezes as piadas são bobas e livres de censura - um das contadas recentemente, por exemplo, fala de um burro que penetra uma festa de crocodilos usando uma camisa Lacoste. As piadas quase sempre perdem a graça se traduzidas para outras línguas, e esta pareceu estrondosamente divertida para muitos telespectadores.

Mas muitas vezes os temas são tabus como a satisfação sexual, a embriaguez, o adultério e o ciclo menstrual das mulheres.

"O programa desafia algumas ideias e tradições sociais e é por isso que atrai tanta atenção", disse Waleed Said, um apresentador cujo sorriso e energia servem como centro gravitacional no programa

O programa deu aos apresentadores, já conhecidos no Iraque por suas aparições anteriores na mídia, um novo nível de fama. Mas quando misturado com polêmica, o destaque aqui pode ser algo perigoso.

"Sim, sim, sim, tenho medo", disse Monem. "Não uso táxis a menos que conheça o motorista. Não vou a restaurantes populares. Ouvi boatos, mas não recebi nenhuma ameaça de morte".

Monem e outros criadores do programa trabalharam na mídia durante o governo de Saddam Hussein. Eles se deleitam com a nova liberdade criativa, mas dizem que ainda há muitos limites ao que podem fazer.

"Se você comparar o que fazemos com o que poderíamos fazer antes de 2003, sim, há alguma liberdade", disse ele. "Se você comparar com o resto do mundo, não."

Por Tim Arango

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