Com beisebol nas veias, Cuba abraça paixão pelo futebol

Sem tradição no país, esporte ganha cada vez mais adeptos, principalmente jovens, em campos improvisados

The New York Times |

Em um anoitecer recente em Havana, iluminado pelos postes de um bairro pobre, uma bola voava em meio a um bando de meninos. Ela não foi atingida por um taco. Ela não cabia confortavelmente na palma de uma mão. Não se tratava de uma bola de beisebol, embora Cuba seja um país que abraça de maneira impressionante o "passatempo americano".

A bola foi chutada em um jogo de improviso entre jovens cubanos que consideram o futebol seu esporte favorito. Mesas antigas marcavam os gols. "Jogamos depois da escola e jogaríamos o dia todo se fosse possível", disse Emanuel Fernandez, 10, que minutos antes tinha comemorado um gol com cambalhotas. "É o nosso jogo divertido e rápido."

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Criança joga futebol em Havana, Cuba (29/03)

Tal declaração poderia ter sido tratada como heresia neste país. O beisebol há muito é considerado tão cubano quanto os charutos enrolados à mão, independentemente da origem do jogo em um país que o governo ironicamente chama de "imperialista". Fidel Castro é um devoto conhecido do esporte e chegou até mesmo a jogá-lo quando era mais jovem. A seleção de beisebol cubana ganhou ouro ou prata nos últimos cinco Jogos Olímpicos e vários jogadores desertaram para participar nos campeonatos americanos.

O futebol tem menos espaço no passado do país. A única participação de Cuba em uma Copa do Mundo, em 1938, terminou em uma derrota humilhante de 8 a 0 para a Suécia nas quartas de final. Exceto por vislumbres ocasionais de força regional, a seleção nacional de Cuba nunca mais teve qualquer destaque.

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Mas nos últimos anos, o futebol ganhou espaço. Depois que a televisão cubana transmitiu a Copa do Mundo de 2010 e começou a mostrar mais jogos europeus, jogos de confraternização começaram a aparecer por toda a ilha. Crianças andam com camisetas do jogador Messi e de outras estrelas e juram fidelidade ao Real Madrid ou ao Barcelona, cuja rivalidade é seguida de perto. Gritos de gol tomam conta de bares e apartamentos diante das tevês.

O frenesi do futebol chegou a tal ponto que uma reportagem recente questionou se a paixão pelo beisebol estava em declínio.

No Cubadebate, um site de notícias controlado pelo governo, a coluna deste mês do jornalista esportivo Michael Contreras declarou que a ideia de que o beisebol cubano está em seu leito de morte é "absurda".

Ele sugeriu que a qualidade do beisebol cubano pode ter declinado, incentivando o interesse no futebol, mas que há espaço para ambos. "Aqueles que acham que Cuba vai renunciar ao beisebol estão perdendo a cabeça", disse.

O futebol, no entanto, tem algumas coisas a seu favor. Os jovens é que estão abraçando o esporte, dando-lhe boas chances de futuro. Além disso, os pais podem achar futebol mais econômico, pois ele requer apenas uma bola, ao contrário das luvas, bola e taco necessários para a prática do beisebol. E mesmo espaços apertados podem servir de campo - em um parque local, um grupo de jovens jogadores subiu no telhado de uma casa quando todos os outros campos estavam ocupados e começou a chutar uma bola.

Nancy Gomez, que observava seu neto de nove anos jogar em um parque, disse: "O futebol é um jogo bom porque necessita apenas de uma bola e nada mais. Com uma bola várias crianças jogam".

Bares e restaurantes que mostram jogos em suas tevês também ficam cheios rapidamente, como na semana passada, quando o Barcelona derrotou o Real Madrid por 2 a 1, em um dos jogos mais assistidos em todo o mundo.

"É o contraste entre dois grandes times", disse Carlos Menendez, um garçom no El Aljibe, um restaurante popular na capital cubana. "Isso é muito atraente para os cubanos. Amamos uma competição".

Naturalmente, existem algumas nuances políticas.O aumento no interesse em Cuba coincidiu com uma mania de futebol na Venezuela. Os países têm laços estreitos e o presidente Hugo Chávez, ao visitar Fidel durante a Copa América, escreveu em seu Twitter: "Assistindo ao jogo com Fidel. Iremos conseguir! Iremos conquistar!" – mas o Chile derrotou a Venezuela por 2 a 1.

Sem a existência de esporte profissional em Cuba, o mesmo anseio da maioria dos atletas em desertar para ganhar grandes salários no exterior atinge as estrelas do futebol local. Em março, Yosmel de Armas, jogador da seleção cubana de futebol, desapareceu antes de um jogo em Nashville, Tennessee, e mais tarde apareceu em Miami, onde pediu asilo político. Em 2008, vários membros da equipe desertaram em Tampa, Flórida, durante o torneio de qualificação para os Jogos Olímpicos.

"Entre os jovens cubanos, a devoção ao futebol cresce e decai o amor pelo beisebol. Eu me pergunto, o que acontecerá?", escreveu a blogueira Yoani Sánchez em seu Twitter, enquanto ouvia aplausos de pessoas que assistiam ao jogo do campeonato espanhol.

Mas a maioria dos cubanos concorda que, embora a Fifa esteja trabalhando para melhorar a qualidade dos campos do país, Cuba ainda está longe de se tornar uma ameaça para a ordem mundial do futebol.

"Todo mundo que trabalha duro tem direito a sonhar", disse Antonio Garces, vice-presidente da Federação Cubana de Futebol. “Podemos sonhar que um dia chegaremos à Copa do Mundo e, quem sabe, até ganhar".

Por Randal C. Archibold

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