Aos 92 anos, 'contrabandista' de DVDs vira herói de soldados americanos

Após ficar viúvo, Hyman Strachman achou um hobby: enviar cópias ilegais de filmes para tropas dos EUA no Iraque e no Afeganistão

The New York Times |

Um dos maiores contrabandistas de DVDs piratas do mundo passou oito anos produzindo centenas de milhares de cópias de "Se Beber, Não Case", "Gran Torino" e outros filmes de Hollywood em seu pequeno apartamento em Massapequa, Nova York. Todas estas cópias foram enviadas para o exterior.

"Big Hy", como é conhecido por muitos clientes fiéis, quase certamente seria eleito o inimigo nº 1 de Hollywood por sua atividade. Mas Hyman Strachman é um senhor de 92 anos e veterano da Segunda Guerra Mundial que tenta ocupar os seus dias depois da morte da esposa. Os DVDs piratas são enviados gratuitamente para soldados americanos no Iraque e no Afeganistão - quase quatro mil caixas até agora.

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Hyman Strachman, 92 anos, produz cópias de DVDs piradas em sua casa em Massapequa, NY

Com a presença militar cada vez menor dos Estados Unidos nessas áreas, Big Hy viverá na lembrança dos soldados como muitos dos heróis desconhecidos da guerra.

"Não é a coisa certa a se fazer, mas eu fazia", disse Strachman, reconhecendo que violou leis de direitos autorais. "Se fosse mais jovem", acrescentou, "talvez passasse um tempo na prisão."

O capitão Bryan Curran, que voltou recentemente do Afeganistão, estima que entre 2008 e 2010 Strachman tenha enviado mais de dois mil DVDs para os soldados alocados no país.

"Você fica chocado porque pensa inicialmente que isso vem de algum submundo contrabandista da Europa Oriental e não de um judeu idoso de Long Island", disse Curran. "Ele enviava os pacotes na época dos lançamentos - sempre que um novo filme chegava aos cinemas, sabíamos que Big Hy enviaria cópias para nos entreter um pouco. Vi 'Transformers' antes mesmo da estreia nos Estados Unidos."

Jenna Gordon, uma especialista da Reserva do Exército, disse que entregou ainda mais DVDs de Strachman no ano passado quando atuou como médica em Kandahar, no Afeganistão, onde soldados se reuniam para as noites de cinema ao redor de computadores pessoais, com o barulho de morteiros explodindo ao fundo. Alguns sabiam apenas que os DVDs vinham de um cara chamado Big Hy, outros nem isso.

"Isso era muito importante porque nos reconectava a tudo que não queríamos perder", disse ela. "Entregávamos uma pilha às pessoas para que passassem adiante".

Grisalho e ligeiramente curvado, Strachman fala com um sotaque do Brooklyn da era da Depressão ao explicar que sua aventura está terminando. “Eles vão voltar para casa logo", disse, sobre os soldados.

Enquanto falava, ele estava ocupado preparando alguns pacotes com 84 DVDs de "O Artista", "O Homem que Virou o Jogo" e outros filmes populares, muitos recém-saídos do cinema, para um pelotão no Afeganistão. Quanto à violação descarada das leis de direitos autorais nacionais, Strachman admitiu sua culpa mas apontou para as paredes de seu pequeno apartamento, onde se vê sete enormes bandeiras dos Estados Unidos, dezenas de cartas de agradecimento e fotos de soldados segurando seus DVDs.

"Toda vez que recebo um email ou carta de agradecimento, envio outra caixa”, explicou, acrescentando que nunca aceitou dinheiro pelos filmes ou recebeu qualquer pedido de alguma autoridade para que parasse de reproduzir o material."Talvez porque sou um velho", disse.

Em fevereiro, Strachman copiou e enviou 1,1 mil filmes ("um mês lento", disse). Ele não manteve uma contagem oficial, mas estima ter feito mais de 80 mil cópias nos “anos de ouro”, em 2007 e 2008, chegando a um total de mais de 300 mil desde que começou, em 2004. Com a postagem de cada caixa a cerca de US$ 11 e o custo dos DVDs virgens, ele gastou cerca US$ 30 mil.

Strachman nunca copiou um DVD comprado em loja e nem sequer saberia como. Ele comprava filmes piratas por US$ 5 na Penn Station, em NY, antes de encontrar um distribuidor mais perto de casa, na barbearia local. Esses discos eram gravações feitas ilegalmente nos cinemas ou cópias de estúdio que haviam vazado.

Originalmente, Strachman usava seu computador para copiar os filmes um de cada vez ("era cansativo", reclamou). Então ele comprou um duplicador profissional por US$ 400 que faz sete cópias de uma só vez, deixou suas unhas crescerem para separar melhor os discos em branco e começou a copiar centenas por dia.

Em pouco tempo, a única evidência de sua operação estará nas cartas e fotos nas paredes. "Passamos nosso tempo livre assistindo seus filmes enquanto limpamos nossas armas", diz um bilhete manuscrito e dirigido a Big Hy.

A diversão irá acabar em breve, disse Strachman. "Não sei quem ficará por lá", afirmou, mais feliz pelo retorno dos soldados do que por precisar encontrar um outro hobby.

Então o alarme do duplicador soou e mais sete cópias de "O Artista" estavam prontas.

Por Alan Schwarz

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