Após mudar moeda para dólar americano, Zimbábue vive falta de troco

Depois de inflação absurda desvalorizar moeda, país africano passa a ter dinheiro forte e se esforça para ter transações redondas

The New York Times |

Quando os zimbabuanos afirmam estar à espera de algum tipo de desafio, eles geralmente estão falando do desafio de uma mudança política em um país que tem o mesmo líder desde 1980.

Abusos: Antigas atrocidades continuam a assombrar o Zimbábue

Mas, recentemente, Robson Madzumbara vem enfrentando um outro tipo de desafio. Receber troco. Ele tem de esperar por troco em supermercados, no ônibus, na barraca de legumes que administra e em qualquer outro lugar onde compre ou venda alguma coisa.

NYT
Evelyn Chikandewa, que vende legumes em Harare, nem sempre tem troco para notas de US$ 1
"Nós nunca temos troco suficiente", disse, enquanto arrumava sua barraca. "O troco é um grande problema no Zimbábue."

Durante anos, o Zimbábue sofreu de um problema oposto: uma inflação absurda. Passar no supermercado significava andar com uma mala de dinheiro para poder pagar pela compra. Em janeiro de 2009, o país tinha contas no valor de 100 trilhões de dólares zimbabuanos e logo em seguida a moeda se desvalorizou de tal forma que não era possível comprar sequer um pedaço de pão com as notas (hoje elas circulam no eBay, onde são vendidas como souvernirs).

Mas desde que o Zimbábue começou a utilizar o dólar americano como moeda em 2009, ele se deparou com um surpreendente problema. Seu dinheiro, que uma vez chegou a valer muito pouco, hoje vale muito.

O zimbabuanos batizaram a situação de "problema da moeda,” pois o país simplesmente não as possui. As moedas são pesadas e se torna caro enviá-las ao país. Mas em um lugar onde milhões de pessoas vivem na base de US$ 1 ou US$ 2 por dia, o ato de tentar fazer com que cada transação some US$ 1 redondo se tornou um problema nacional.

Saúde: Ministros serão circuncisados para dar exemplo

Ainda assim, a nova situação é uma melhoria. Como praticamente acabou com a inflação, segundo os analistas, o uso do dólar americano salvou o Zimbábue da beira de um completo colapso econômico. O futuro político do país continua profundamente abalado desde que a disputada eleição de 2008 deu lugar a um instável governo de poder compartilhado. Mas sua economia está crescendo, mesmo que esteja vindo de uma base muito baixa.

De acordo com o FED (Banco Central americano), pelo menos cinco países adotaram oficialmente o dólar americano como moeda. Vários outros, como o Zimbábue, utilizam o dólar de uma maneira quase que exclusiva e mantêm a moeda nacional, ainda que fora de circulação.

Distância

Mas as moedas americanas pouco circulam mais de 160 quilômetros além das fronteiras do país por causa de seu peso e dos custos elevados de transporte.

A maioria dos países que utiliza o dólar costuma contornar esse problema por meio da cunhagem de moedas locais: o Equador utiliza o dólar como moeda local, mas mantém suas moedas de centavos. E o governo garante: qualquer pessoa que queira trocar 100 centavos equatorianos por um dólar americano pode fazê-lo.

Mas isso exige uma grande confiança no governo local, um assunto que é ainda menos popular do que a quantidade de moedas no país. Os zimbabuanos disseram simplesmente não acreditar em seu governo.

Muitos zimbabuanos utilizam moedas da África do Sul. Mas isso também apresenta suas dificuldades. A moeda sul-africana - o rand - está em falta. Para complicar, o rand, como a maioria das moedas, varia em relação ao dólar, tornando os preços difíceis de corrigir.

Tendai Biti, ministro de finanças do Zimbábue e um político sênior do Movimento para a Mudança Democrática, disse que tentou, sem sucesso, encontrar uma solução.

Os caixas dos supermercados também estão frustrados e acabaram criando seus próprios caminhos para aliviar esta tensão. Toda a transação que ocorre dentro do supermercado é dificultada pelo empecílio de não terem troco disponível para fornecer aos clientes. O cliente tenta fazer suas compras de acordo com a falta de troco no local. E no caixa, os clientes devem pensar na melhor maneira que poderão contornar o problema.

À medida que Lydia Zhuwawu trabalhava no caixa do supermercado em Harare durante o período mais movimentado do dia, ela tentava conversar com os clientes para tentar chegar a um acordo a respeito do que poderiam aceitar como troco em vez de moedas.

NYT
John Nengomasha (D) espera por troco em supermercado de Harare, capital do Zimbábue
Um cliente com o equivalente a US$ 3,90 de compras passou no caixa. Zhuwawu lhe ofereceu um abridor de garrafas de aço. "Esse abridor vale 10 centavos?", pergunta o cliente antes de levá-lo.

Ela disse que a maioria das pessoas acaba encarando a situação com bom humor. Depois de tudo que o Zimbábue já teve de enfrentar, isso não é um problema tão grande assim.

Um homem entra para comprar grampos. A caixa custa 30 centavos, mas ele tem apenas um dólar. Sua gaveta de troco está vazia. "Pode levar a caixa de cortesia", disse Zhuwawu. "É seu dia de sorte. Nada é grátis no Zimbábue."

*Por Lydia Polgreen

    Leia tudo sobre: zimbábuedólareuamoedatrocoeconomiagoverno

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG