Caso Trayvon Martin traz lembranças a pais de jovem negro morto na Geórgia

Apesar das semelhanças, morte de Justin Patterson, 22 anos, não teve a mesma repercussão que a de menino assassinado na Flórida

The New York Times |

Norman Neesmith estava dormindo em sua casa na região rural de Lyons, Geórgia, quando um barulho o acordou. Ele pegou a pistola calibre 22 que mantinha ao lado da cama e foi investigar.

Neesmith encontrou dois jovens irmãos que haviam sido secretamente convidados para uma festa com a menina de 18 anos que ele criava como filha e uma amiga dela. Cada casal estava em um quarto. Houve maconha e sexo.

Ao longo dos confusos minutos seguintes houve uma briga. Os jovens, aterrorizados, correram para a porta. Neesmith, que tem 62 anos, disparou quatro tiros. Um deles atingiu Justin Patterson, que tinha 22 anos e era negro.

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Sha'von Patterson mostra foto dele com o irmão, Justin, morto no ano passado (17/04)

A bala perfurou seu corpo e ele morreu no quintal de Neesmith. Seu irmão mais novo, Sha'von, então com 18 anos, correu pelos campos de cebola no escuro, freneticamente tentando ligar para sua mãe.

Naquele dia, 29 de janeiro de 2011, Neesmith foi preso. O promotor apresentou sete acusações contra ele, entre elas homicídio, cárcere privado e agressão agravada. Nesta semana, Neesmith foi condenado a um ano de prisão.

Ao longo das últimas semanas, os pais dos jovens, Julius e Deede Patterson, viram a notícia sobre a morte de Trayvon Martin na Flórida e se concentraram nas semelhanças. Em ambos os casos, um jovem negro desarmado morreu nas mãos de alguém de uma raça diferente.

Eles começaram a se perguntar o motivo de ninguém ter marchado por seu filho , de pessoas como o reverendo Al Sharpton não terem sequer pisado no seu Condado de Toombs. Os representantes locais da Naacp (Associação para o Avanço de Pessoas de Cor, na sigla em inglês) não se envolveu na questão, embora o pai de Patterson tenha se aproximado deles.

"Estamos analisando o caso", disse Michael Dennard, presidente do grupo na região, quando um repórter ligou para ele mais de um ano depois do crime. Ele não quis entrar em detalhes.

O motivo de alguns casos com implicações raciais atingem a consciência nacional e os outros não tanto é uma questão que envolve o poder da mídia social e dos meios de comunicação tradicionais, disse Ta-Nehisi Coates, editor-sênior do The Atlantic, que escreve sobre questões raciais.

Vários fatores fizeram o caso de Martin avançar: uma aparentemente incompleta investigação policial, nenhuma prisão imediata e a ampla lei de autodefesa da Flórida.

"Estas histórias acontecem o tempo todo", disse Coates. "É desolador e trágico, mas não há muita cobertura da mídia a menos que as circunstâncias sejam verdadeiramente incomuns."

Embora os fatos que cercam o caso da Flórida e o da Geórgia sejam bastante diferentes, ambos envolveram uma alegação de autodefesa, um jovem negro morto e, para os Pattersons e os Martins, uma profunda preocupação de que a raça desempenhou um papel importante nas mortes de seus filhos.

"Definitivamente acredito que ele foi baleado por causa do racismo", disse Deede Patterson, que recentemente deixou seu emprego como diretora de operações em uma fabricante de uniformes e se mudou outra cidade pequena da Geórgia. "E o responsável receber uma sentença tão branda me faz pensar que há algo errado aqui."

Ainda assim, como tantos outros crimes em que a raça pode ser um fator decisivo, este não está claro. Neesmith afirma que se sentiu ameaçado pelos jovens. Ele diz lamentar pelos pais, mas que nada disso teria acontecido se os jovens não estivessem na casa dele quando não deveriam estar.

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Deede Patterson, mãe de menino morto na Geórgia, abraça a filha dele em sua casa em Vidalia (13/04)

"Penso nisso todos os dias. É a pior coisa pela qua já passei", disse Neesmith. "Em dois minutos tudo mudou. Se você nunca atirou em ninguém, você não quer fazer isso, posso afirmar."

No túmulo de Justin Patterson, sua mãe balança a cabeça. Ela visitou o local com a filha de seu filho, ainda em idade pré-escolar, que os Pattersons, embora divorciados, estão criando.

Ela diz que as coisas simplesmente não parecem certas. O que está fazendo o advogado do distrito? E como o filho dela, de 1,70 m, poderia representar uma ameaça para Neesmith, que tem 1,90 m e pesa 110 quilos?

"Se ele tivesse apenas pedido que saíssem, eles teriam ido embora", disse ela. "Eles são meninos educados. Ele tirou uma vida que não precisava ter tirado".

Por Kim Severson

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