Repercussão global de escândalo surpreende prostitutas da Colômbia

Comportamento de agentes do Serviço Secreto dos EUA em Cartagena provoca raiva e fere orgulho de moradores

The New York Times |

Esfregando olhos sonolentos pela falta de sono e manchados pelo rímel usado na noite anterior, as funcionárias do Angeles Bar Club entraram uma a uma em um quarto minúsculo na tarde de terça-feira (24) para serem testadas para doenças sexualmente transmissíveis.

É algo que acontece semanalmente em bordéis em Cartagena, na Colômbia, onde a próspera indústria de prostituição legal, em grande parte orientada a turistas estrangeiros, tornou-se o foco da atenção internacional quando um grupo de agentes do Serviço Secreto americano se envolveu em um escândalo por terem levado prostitutas para seus quartos de hotel.

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Prostitutas se preparam para início do trabalho em bordel de Cartagena, na Colômbia (25/04)

"Toda essa conversa sobre eles é o lado escuro da prostituição", disse a proprietária do clube, que atende pelo nome de Camila, referindo-se a reportagens sobre a indisciplinada cena noturna de Cartagena . Ela folheou uma pilha de pastas contendo os resultados dos testes de 22 de suas funcionárias. O bordel insiste que todos os clientes usem preservativos e, segundo uma autoridade de saúde pública que já trabalhou com o clube, nenhuma das prostitutas que trabalha ali testou positivo em três anos de exames.

"Isto é para o benefício dos clientes e para o benefício das meninas", disse Camila, que pediu que seu nome verdadeiro não fosse usado porque algumas pessoas não sabem que ela é dona de um bordel. "Elas têm famílias e enviam dinheiro para crianças que querem ver crescer."

O povo da cidade, dentro e fora dos bordéis, têm se esforçado para chegar a um acordo sobre toda a comoção que abalou as atividades noturnas de autoridades de segurança dos Estados Unidos antes mesmo da chegada do presidente Barack Obama a Cartagena no dia 13 de abril, onde esteve para uma reunião de cúpula.

Muitos em Cartagna ficaram perplexos com o barulho feito pelos americanos sobre algo tão banal aos olhos locais, como um homem levar uma mulher para um quarto de hotel e pagá-la por sexo.

Também são proferidas algumas palavras de raiva e orgulho nacional ferido em relação ao comportamento do agente do Serviço Secreto que se recusou a pagar e que, segundo a mulher envolvida, gritou um palavrão antes de trancar-se em seu quarto de hotel no início da manhã.

"Só porque você vem de outro país e trabalha para Obama não quer dizer que pode chegar aqui e tratar alguém com desrespeito", disse uma funcionária do clube de 28 anos, que trabalha como prostituta há seis anos. A prostituta envolvida no caso mencionou a mesma questão em uma entrevista logo após o escândalo. "Você não pode ir para outro país e fazer o que quiser com uma mulher", disse ela. "Você tem de respeitá-la."

A mulher, que desde então deixou a cidade, disse em um email enviado na quarta-feira (25) que não tinha falado com investigadores americanos que pediram entrevista com todas as mulheres que foram aos quartos de agentes do Serviço Secreto durante sua estada no país.

A prostituição é legal na Colômbia e muitos dizem que é assim que deve ser. Mas a postura dos colombianos em relação à prostituição não é tão simples. A Colômbia é, em muitos aspectos, uma sociedade profundamente tradicional, e trabalhar como prostituta carrega um estigma pesado.

Em diversas entrevistas, muitas prostitutas confessaram esconder seu trabalho de suas famílias. A maioria veio de outras regiões do país, como Medellín ou Cali, a fim de minimizar a possibilidade de que alguém descubra como ganham a vida.

"Se minha mãe soubesse, ela não aceitaria o dinheiro que eu mando e tentaria tirar minhas filhas de mim", disse uma prostituta de 28 anos, nascida em Medellín.

Na terça-feira, na Sala 7 do bordel, todas as mulheres entregaram uma parte de seus lucros para pagar pelos exames. O simples teste semanal em busca de infecções vaginais custa cerca de US$ 6. A cada três meses, as mulheres também fazem testes para sífilis e o vírus causador da aids, que custam cerca de US$ 17.

Uma mulher ponderou que seria justo que os homens que pagam para fazer sexo com elas também fossem testados. Às vezes isso acontece, segundo a proprietária do bordel.

Algumas vezes, um cliente chega a ela para dizer que o preservativo rompeu e perguntar se a prostituta havia sido testada para doenças sexualmente transmissíveis. Ela, então, mostra ao cliente os resultados dos testes mais recentes da mulher.

Duas vezes, segundo ela, clientes concordaram em fazer um rápido teste de HIV para mostrar que eles também não estavam infectados.

A dona do bordel disse que as autoridades de saúde locais frequentemente verificam os testes de suas funcionárias.

Ainda assim, o El Universal, principal jornal de Cartagena, lamentou todo o foco sobre a prostituição da cidade e expressou preocupação de que isso possa prejudicar sua reputação.

"Isso era tudo que precisávamos", disse o jornal em um editorial. "Agora Cartagena é a cidade do pecado que corrompe os compatriotas de Monica Lewinsky, Bill Clinton e Heidi Fleiss, a Madame Hollywood".

Por William Neuman

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