Vivendo em mansões históricas de Nova York, sem pagar aluguel

Responsáveis por algumas das mais esplêndidas casas da cidade, funcionários não recebem salário, mas têm moradia de graça

The New York Times |

Já faz quase 25 anos que Roy Fox não recebe um salário mensal. Ele não ganhou na loteria, tampouco recebeu uma herança de família. Ele é, em suma, o tipo de pessoa que teria sido destruída pelos preços cada vez mais altos do mercado imobiliário de Nova York.

Mas há mais de duas décadas, Fox, um radialista aposentado que recebe uma pensão modesta, tem vivido muito bem, com vista para o parque, pisos de madeira polida e detalhes históricos. Na verdade, ele é o único morador de uma mansão de 29 quartos no bairro de Jamaica, Queens, construída antes da Declaração de Independência dos Estados Unidos ser escrita - uma mansão, digamos, pré-pré-guerra.

Leia também: Um 'tour' pelas casas dos lordes das drogas no México

NYT
O museu King Manor, em Nova York, uma das mais bonitas mansões da cidade (13/04)

Se pagar escandalosamente pouco por um dos 39 mil apartamentos cujo aluguel é controlado pela prefeitura é visto como o Santo Graal do mercado de imóveis de Nova York, isso só acontece porque poucas pessoas sabem da existência de algo ainda melhor.

Fox, 72, é um dos 19 sortudos que trabalham como zeladores de casa históricas da cidade, um trabalho que não paga salário, mas permite algo que é aparentemente tão generoso que muitos relutam em admiti-lo aos seus amigos: eles não apenas vivem nas mais esplêndidas mansões da cidade, mas também não precisam pagar aluguel.

Em uma casa de fazenda centenária localizada no Queens, Steve Eftimiades serve pratos coloniais a seus convidados em jantares à luz de velas. Na Cortlandt Van House, Laura Carpenter deixa seus cachorros soltos no quintal, o parque de mesmo nome. E quando as luzes da casa de contos de fadas localizada em um playground no Bronx acendem, não é o fantasma de um de seus moradores mais famosos, Edgar Allan Poe, mas provavelmente o novo guardião da residência.

O programa pouco conhecido sob os auspícios da Historic House Trust, administrado pelo Departamento de Parques e Recreação da Cidade de Nova York, em parceria com organizações privadas que cuidam das propriedades, foi criado para garantir que alguém esteja por perto para proteger os edifícios de vandalismo, fogo e gelo.

Mesmo que qualquer um possa se candidatar online, muitas das posições vão para aqueles com conexões com o mundo da preservação histórica. Ainda assim, há pouca competição pelas vagas e nenhuma exigência, portanto aqueles que recebem as chaves para manter as mansões muitas vezes vivem ali durante décadas. E a cidade paga as contas.

Franklin Vagnone, o diretor-executivo do programa, disse que a atração central das casas é a oportunidade de interagir com a história das pessoas que viveram nelas. "As casas fornecem uma espécie de manifestação física desse legado", disse.

Por mais improvável que possa parecer para os milhões de nova-iorquinos que entregam uma porção razoável de seu dinheiro para os proprietários de seus apartamentos todos os meses, os moradores insistem que são muito mais motivados pela ligação com a propriedade do que pelo bom negócio imobiliário. E acrescentam: suas vidas não são particularmente fascinantes.

A casa pode ser uma espécie de gaiola dourada. A maioria dos moradores vive em quartos de funcionários reaproveitados, um ambiente que descrevem como suficiente. Eles cortam a grama, removem neve e lidam com roedores. Além disso, precisam tomar muito cuidado para não danificar as mansões ou, quando as casas também são museus, seu conteúdo.

"Não faço jantares para falar sobre a mansão", disse Carpenter, que vive há 18 anos na casa de fazenda estilo holandesa no Parque Van Cortlandt, onde também trabalha como diretora do museu. Há, ela explicou, "uma linha muito rigorosa de demarcação entre o seu espaço pessoal e o espaço do museu."

Há inconvenientes: o encanamento e sistemas de aquecimento antigos, as tropas de alunos em excursão, o toque brincalhão na campainha durante a madrugada. Além disso, para viver em uma mansão decrépita é preciso ter coragem.

"Você não pode ter medo de ficar sozinho à noite", disse Adrian Benepe, o comissário de parques que ajudou a fundar o programa em 1989. Algumas das mansões têm lendas desagradáveis. "Você não pode ter medo de fantasmas."

Por Sarah Maslin Nir

    Leia tudo sobre: mansõesnova yorkeua

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG