Escândalo traz questões sobre riqueza de familiares de político chinês

Família de Bo Xilai, afastado da direção do Partido Comunista, acumulou fortuna de US$ 160 milhões na última década

The New York Times |

Apenas algumas semanas antes de sua dramática queda do poder , Bo Xilai escreveu uma carta à mão elogiando a empresa Chongqing Water Assets Management Co. e pedindo apoio para suas operações. O que ele não mencionou foi que uma fundação controlada por seu irmão mais novo, Bo Xicheng, havia adquirido uma participação em uma subsidiária da companhia.

Bo Xilai tinha feito algo semelhante em 2003, enquanto servia como governador na província de Liaoning. Ele disse que sua província faria de seu apoio à empresa Dalian Daxian, um conglomerado focado basicamente na fabricação de produtos eletrônicos, uma de suas missões mais importantes. Alguns anos antes, outra empresa controlada pelo mesmo irmão mais novo foi listada como sendo proprietária de quase 1 milhão de ações da Dalian Daxian, que vale cerca de US$ 1,2 milhões.

Leia também: Grampo em telefone de presidente chinês levou à queda de Bo Xilai

Não está claro se Bo Xilai sabia sobre essas participações indiretas nas empresas ou se seu irmão lucrava com seus pronunciamentos. Mas agora, diante da demissão de Bo Xilai sob suspeita de corrupção e acusações de que sua esposa teria mandado matar um de seus parceiros de negócios britânico, surgiram suspeitas de que ele, que foi recentemente o chefe do partido na cidade de Chongqing e um membro do Politburo, tenha usufruído de sua enorme influência política para enriquecer a si mesmo e seus parentes mais próximos.

Durante grande parte da última década, enquanto Bo Xilai estava ocupado em se promover dentro do Partido Comunista, chegando a adotar posturas populistas que supostamente visavam a melhorar a qualidade de vida dos pobres, seus parentes foram discretamente acumulando uma fortuna estimada em mais de US$ 160 milhões. Seu irmão mais velho acumulou milhões de dólares em ações em um dos maiores conglomerados estatais do país. Sua cunhada possui uma participação significativa em uma gráfica, que foi recentemente avaliada em US$ 400 milhões. E até mesmo o filho de Bo, que tem 24 anos e hoje estuda em Harvard, entrou no negócio em 2010, registrando uma empresa de tecnologia com US$ 320 mil dólares em capital inicial.

A queda de Bo Xilai também deu maior visibilidade à riqueza escondida e ao poder adquirido por parte das famílias revolucionárias do Partido Comunista, e pelos filhos, filhas, esposas e parentes próximos das autoridades de alto escalão do país.

Bo foi suspenso de seu cargo no Politburo e em Chongqing, uma metrópole de grandes dimensões com status de província, diante de acusações de que havia interferido em uma investigação sobre a morte de Neil Heywood, um empresário britânico cujo corpo foi encontrado em um hotel em Chongqing no dia 15 de novembro. Sua morte foi inicialmente atribuída a envenenamento por álcool. A mulher de Bo, Gu Kailai , e Zhang Xiaojun, o “capanga” de 32 anos de idade da família, foram indiciados como principais suspeitos. Autoridades também disseram que Gu e seu filho, Bo Guagua , tiveram uma disputa com Heywood a respeito de certos "interesses econômicos".

O caso levantou questões sobre como a família de Bo foi capaz de se dar ao luxo de mandar seu único filho para estudar na Inglaterra, em Harrow e na Universidade de Oxford, e hoje em Harvard, onde faz pós-graduação.

Nenhum dos membros da família de Bo foi acusado de ilegalidade. Mas as circunstâncias que envolvem as ações de Bo, como o fato de ele apoiar as empresas onde os membros de sua família tinham interesse sugerem que ele pode ter usado sua influência para ajudar a aumentar a sua riqueza.

Pouco se sabe a respeito da esposa de Bo Xilai, exceto que ela abriu seu próprio escritório de advocacia, com filiais em vários países, e também criou várias empresas de consultoria com empresários estrangeiros.

Existe também uma grande aura de mistério ao redor do filho do primeiro casamento de Bo, Li Wangzhi. Assim como os filhos de outras autoridades de alto escalão chinesas, Li, 34, tem trabalhado com fundos de investimento em participações e realizou um trabalho no Citigroup. Ele investiu em empresas como a Dalian depois de decisões políticas tomadas por seu pai, de acordo com registros corporativos. Ele também é conhecido por outros nomes como Brendan Li e Li Xiaobai.

Não se sabe ao certo se Bo Xilai tinha conhecimento de todas estas atividades por parte de seus familiares quando estava no poder, mas uma coisa ficou clara: há alta demanda por parentes de autoridades chinesas de alto escalão.

"Eles são procurados porque de certa maneira estão vinculados ao poder", disse Laurence Brahm, um ex-advogado que já escreveu livros sobre a economia da China e sua cena política. "Em virtude do fato de que eles são filhos ou filhas de alguém no poder, quando visitam as províncias sabemos que terão o mesmo tratamento que seus parentes. E os empresários nas famílias acabam tirando proveito disso."

Por David Barboza

    Leia tudo sobre: chinabo xilaipartido comunista chinêsGu KailaiBo GuaguaWang Lijun

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG