Cultura da propina representa perda bilionária para economia do México

Prática que prejudica seriamente as finanças do país é aceita como forma mais rápida de resolver problemas

The New York Times |

De vez em quando, o Departamento de Saúde faz uma visita à loja de alimentos de José Luis Garcia, localizada em um bairro afluente da Cidade do México. Garcia imediatamente pega sua carteira.

"Primeiro eles dizem que vou tomar uma multa e, logo em seguida, afirmam: 'Podemos resolver isso de outra maneira'", contou Garcia, que normalmente paga entre US$ 50 e US$ 100 para que os inspetores deixem seu estabelecimento.

É quase um costume pagar propina para resolver de forma mais rápida dificuldades com um inspetor da secretaria de saúde, policial de trânsito ou qualquer outro oficial do governo.

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Mexicanos fazem compras em loja da Walmart na Cidade do México; rede é acusada de pagar propina (29/03)

Uma burocracia antiquada, algo que os economistas advertiram há tempos diminuir o potencial de crescimento da região, e os baixos salários dos funcionários públicos fazem com que a solução para as mais simples operações seja baseada em irregularidades. Quanto maior for o projeto, dizem especialistas, maior será o valor da propina.

"Você pode até ter todas as suas licenças em dia, mas mesmo assim eles dizem que você tem que contribuir com algo", disse Salvador Contreras, um empreiteiro que está construindo um prédio de escritórios em uma avenida principal da capital mexicana. "Se você fizer isso da maneira normal, ou seja, sem pagar a propina, pode demorar o dobro do tempo necessário."

Tão profunda quanto a corrupção e a frustração decorrente dela é a sua aceitação. Por isso a reportagem feita pelo The New York Times a respeito do Walmart do México ter pago propinas para acelerar a expansão de seu império no país e sua tentativa posterior de tentar encobrir estes subornos não foi nenhuma surpresa. O que causou espanto foi o montante envolvido - mais de US$ 24 milhões - e o fato de que isso expôs de uma maneira pública uma realidade que os mexicanos são obrigados a enfrentar em uma escala muito menor em suas vidas cotidianas.

"Eles aprenderam todos os piores truques do México", disse Carlos Salas, um vendedor ambulante que também admitiu ter pago propinas a inspetores municipais.

Um estudo realizado em janeiro pela Integridade Financeira Global, um grupo de pesquisa de Washington, disse que o México perdeu US$ 872 bilhões entre 1970 e 2010 para o crime, a corrupção e a evasão fiscal, com uma aceleração de perdas desde o início do Tratado Norte-Americano de Livre Comércio, em 1994, e de sua abertura ao investimento estrangeiro.

"Tudo isso faz parte do mundo dos negócios", disse Heather Lowe, consultora jurídica para o grupo. "É uma questão de negócios internacional, mas que atinge o México de uma maneira mais significativa."

"O que o nosso relatório mostrou", acrescentou, "é que existe um grande desrespeito pelas leis entre muitos na comunidade de negócios mexicana, seja ao sonegar impostos ou se envolver em subornos ou até mesmo em outros crimes. Há um desrespeito geral pela lei no México e também pela lei americana."

O México é o único país em desenvolvimento que compartilha uma fronteira com uma democracia industrial de grande dimensão, criando um tipo de tentação para ambos os lados, explicou ela.

Em maio, uma empresa da Califórnia e dois de seus executivos foram condenados por conspirar em querer subornar um executivo mexicano do ramo de energia elétrica com um iate, uma Ferrari e outros bens em troca de possíveis contratos. No mês passado, a Bizjet concordou em pagar US$ 11,8 milhões para resolver acusações de que havia tentado subornar autoridades mexicanas e do Panamá para ser escolhida para fazer a manutenção de aeronaves de agências governamentais de ambos os países.

Mas as reformas no México nunca parecem se estruturar de uma maneira concisa, pois se trabalha com um sistema de justiça atrasado, repleto de impunidades e investigações mal feitas. No topo dos subornos ligados às empresas estão os relacionados com a droga, em que membros de grupos de crime organizado subornam policiais ou políticos para fingir que não estão vendo o que está acontecendo.

"Temos boas leis", escreveu Luis Carlos Ugalde, um cientista político mexicano, na revista Nexos no ano passado, em uma longa exposição que falava a respeito da corrupção no México e dos possíveis impedimentos a serem enfrentados para se livrar dela. "Mas por algum motivo elas não exercem nenhum poder no mundo da corrupção."

Por Randal C. Archibold

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